Emoções diferentes atingiram os alemães nesta quarta-feira após a notícia de que um compatriota foi eleito como novo papa. Um país que se considera secular, liberal e progressista parece inseguro sobre como reagir à eleição do teólogo ultraconservador Joseph Ratzinger.
- Nós somos o papa! É uma sensação de mil anos! - disse o tablóide Bild. Em vez da modelo de topless na capa, o jornal dedicou a página a uma foto do novo papa Bento XVI, com as mãos para cima saudando a multidão na Praça de São Pedro.
O irreverente jornal de esquerda Tageszeitung adotou uma linha diferente, com a capa em preto e as palavras "Joseph Ratzinger é o novo papa. Oh, meu Deus!" O próprio irmão de Ratzinger, Georg, afirmou ao canal de televisão ARD que foi pego de surpresa pela escolha de Ratzinger, de 78 anos, como o primeiro papa alemão em um milênio.
- Fiquei surpreso, é verdade...Pensava que sua idade e suas condições de saúde não muito estáveis seriam motivos para os cardeais escolherem outro - afirmou.
A Alemanha, centro da Reforma que dividiu o cristianismo ocidental no século 16, é dividida entre católicos e protestantes.
O bispo Wolfgang Huber, presidente da Igreja Protestante do país, disse que Ratzinger tratou outras organizações religiosas com "um considerável grau de exclusão e preconceito" no passado.
Para um país que ainda digere seu papel na Segunda Guerra Mundial e no Holocausto nazista, a idéia de um líder espiritual alemão e autoridade moral da Igreja Católica parecia algo inimaginável.
- Muita gente não acreditava que seria algo possível depois dos terríveis eventos que começaram a partir da Alemanha e que ainda podem ser sentidos - disse em comunicado o cardeal católico alemão Karl Lehmann.
- Portanto, é um importante sinal da volta definitiva da Alemanha à comunidade mundial dos povos...Isso pode ajudar nosso país em muitos aspectos - ressaltou.
Por outro lado, alguns alemães duvidam de que Ratzinger, com frequência mostrado como distante e austero, terá uma mensagem relevante para o seu país e para o mundo do século XXI. Ele deixou claro em discursos recentes que não vê espaço para debate na Igreja à ordenação de mulheres, ao aborto e ao homossexualismo.
- Consideramos a eleição de Ratzinger como uma catástrofe - disse Bernd Goehring, do grupo ecumênico alemão Kirche von Unten.
- É muito decepcionante, mesmo sendo algo previsível. Podemos esperar que não haverá reforma com ele nos próximos anos - disse ainda.
A religião raramente influi na política na Alemanha e a reação dos líderes do país foi positiva, mas contida. O chanceler Gerhard Schroeder, divorciado três vezes, fez um breve pronunciamento nesta terça-feira, em que falou sobre uma "uma grande honra para todo o país".