Rio de Janeiro, 17 de Maio de 2026

Alca: moribunda, mas não morta!

A América Latina amanheceu livre de um cancro em 1º de janeiro de 2005. Nesta data, conforme acordo firmado nos anos 90 por governos neoliberais de 34 países da região, entraria em vigor a Área de Livre Comércio das Américas (Alca), um tratado de anexação que transformaria todas estas nações em colônias "modernas" dos EUA. (Leia Mais)

Segunda, 11 de Julho de 2005 às 21:10, por: CdB

A América Latina amanheceu livre de um cancro em 1º de janeiro de 2005. Nesta data, conforme acordo firmado nos anos 90 por governos neoliberais de 34 países da região, entraria em vigor a Área de Livre Comércio das Américas (Alca), um tratado de anexação que transformaria todas estas nações em colônias "modernas" dos EUA. Comércio, serviços, investimentos, compras governamentais e patentes passariam a ser controlados extra-judicialmente pelo imperialismo ianque, no mais violento atentado à soberania das nações e aos direitos dos povos da história recente. A derrota parcial da Alca nem sequer foi comemorada pelos latino-americanos, envoltos em graves crises econômicas e fortes turbulências políticas e sociais.

O IV Encontro Hemisférico de Luta Contra a Alca, realizado no final de abril em Havana, não vacilou em festejar a expressiva vitória, mesmo que temporária e parcial. "Quem sabe não valorizamos o suficiente o significado deste tropeço para os planos imperiais e que pode deter, ao menos até agora, esta verdadeira ameaça para todos os povos da América. Isso só foi possível pela emergência na região de governos que se distanciaram da hegemonia norte-americana e, sobretudo, porque estes mesmos se devem à crescente resistência e ao impulso do movimento social que se estende incontrolável por toda a América Latina, frustrando os projetos dos poderosos. Depois de anos de luta contra o projeto da Alca, celebramos aqui em Cuba, território livre da América, esta primeira vitória", afirma o documento final do encontro.

RAZÕES DA VITÓRIA

Várias foram as razões que levaram ao revés da proposta do poderoso, mas não invencível, "império do mal". O fator mais visível e alentador foi a pressão constante dos movimentos sociais da região. Foi ela que tornou pública, ao menos em parte, as negociatas realizadas às escondidas pelos governos da região. Ela também acuou os negociadores em centenas de protestos e confrontos de rua nos vários países latino-americanos. Deflagrados no Brasil, com a votação de mais de 10 milhões de pessoas e a ação militante de 150 mil ativistas, os plebiscitos contra a Alca se tornaram um mecanismo criativo e participativo do povo contra a investida dos EUA. A consciência antiimperialista ganhou impulso nesta batalha estratégica.

No bojo dessa crescente resistência ao imperialismo e à sua política destrutiva, o neoliberalismo, a região também presenciou uma viragem à esquerda. Cuba socialista, antes isolada no combate à ambição ianque, ganhou a adesão da revolução bolivariana na Venezuela. Em outras nações, candidatos que se gabavam de manter "relações carnais" com os EUA foram surrados nas urnas; outros 11 presidentes foram apeados do poder nos últimos 15 anos. O Brasil, por seu peso econômico e geopolítico na região, teve um papel de destaque nesta derrota da Alca. Conforme relata Moniz Bandeira, no livro "As relações perigosas Brasil-EUA", a postura ativa do governo Lula esvaziou e protelou o acordo, assim como reforçou a integração sul-americana, através do Mercosul, e diversificou as relações internacionais com a sua política Sul-Sul.

Além desses fatores determinantes, também é preciso registrar a divisão nas próprias classes dominantes nativas. A parte vinculada principalmente ao setor exportador apoiou e fez lobby em favor da Alca: já os setores burgueses mais vinculados ao mercado interno resistiram ao projeto, temendo que a concorrência assimétrica com as corporações ianques resultasse na falência de seus negócios. Essa fratura nas elites se refletiu até nas disputas eleitorais, com facções burguesas apoiando candidatos mais identificados com os interesses nacionais. Por último, vale mencionar os obstáculos à proposta no interior dos EUA - que hoje patinam no Iraque, epicentro da resistência ao imperialismo, e estão envoltos em grave crise doméstica.

TÁTICA IMPERIALISTA

Esta expressiva vitória dos povos latino-americanos, entretanto, não deve embriagar ou de

Tags:
Edições digital e impressa