Resnais, em sua última obra para o cinema, comemorava a vida
Um dos principais representantes da Nouvelle Vague, o cineasta francês Alain Resnais morreu aos 91 anos, em Paris, “cercado pela sua família”, segundo publicou, neste domingo, o diário francês Le Monde. Um dos nomes mais importantes do cinema francês, Resnais dirigiu 50 títulos em 78 anos de carreira. Entre suas obras de referência, destacam-se o documentário sobre campos de concentração nazista, Noite e Neblina (1955), Hiroshima Meu Amor (1959), que foi inspirado em um texto da escritora Marguerite Duras, e o longa O Ano Passado em Marienbad (1961).
Nascido em 1922 na cidade bretã de Vannes, Resnais permanecia ativo em sua paixão cinematográfica. Há cerca de duas semanas, ele havia recebido o prêmio da Federação Internacional de Críticos de Cinema (FIPRESCI) durante o Festival de Berlim, ao apresentar o longa Amar, Beber e Cantar (2014) - que também conquistou o prêmio de inovação artística Alfred Bauer na mesma ocasião. Resnais morreu na noite passada.
Além destes dois últimos reconhecimentos, o diretor ganhou ao longo de sua carreira cinco prêmios César do cinema francês, dois Ursos de Prata de Berlim, três prêmios na Mostra de Veneza, um BAFTA e um prêmio especial do júri de Cannes.
Nouvelle Vague
Ao lado de Jean-Luc Godard e François Truffaut, o cineasta, em suas obras, sempre abordava as questões políticas vinculadas com uma preocupação metafísica sobre o imaginário, o tempo e a reformulação do sujeito após o desastre. Ou, como o filósofo francês Gilles Deleuze bem define: “Resnais só tem uma temática: a do homem que retorna da morte”.
Quando o júri do Festival de Berlim atribuiu a Alain Resnais por Aimer, Boire et Chanter, há duas semanas, o prêmio Alfred H. Bauer para o filme da competição que abria novas direções à arte cinematográfica, não faltou quem franzisse a sombrancelha: um prêmio de “inovação” a um cineasta de 91 anos que adaptava uma peça teatral de modo estilizadamente artificial?
Mas, para quem conhece bem a obra do recém-falecido realizador, o prêmio Alfred H. Bauer – entregue em anos anteriores, por exemplo, a Miguel Gomes por Tabu – fazia todo o sentido. Desde a curta-metragem sobre os campos de concentração Noite e Nevoeiro (e a sua lendária estreia na longa-metragem com Hiroshima Meu Amor até às experiências formais e lúdicas de obras mais recentes como É Sempre a Mesma Cantiga, Corações (2006) ou As Ervas Daninhas (2009), Resnais fez sempre questão de olhar para as coisas sob um novo ângulo, de procurar rumos inesperados e originais. De ir à aventura.
Já a sua obra anterior, Vous n'avez encore rien vu! (2012, inédita no Brasil), fora recebida como um “adeus”, através da reunião de um grupo de atores que participaram, em momentos diferentes, na encenação de uma peça por um encenador recém-falecido. E o novo filme, adaptando uma peça de Alan Ayckbourn, Life of Riley, conta a história de três casais orbitando uma sétima personagem, amigo comum, diagnosticado com uma doença terminal: uma personagem que nunca é vista nem ouvida, mas que parece dirigir os acontecimentos como um pequeno deus antes de morrer.
Celebrar a vida
O elenco do filme presente em Berlim – as atrizes Sabine Azéma, Sandrine Kiberlain e Caroline Silhol e os atores André Dussollier e Hippolyte Girardot – fazendo as vezes de Resnais, que ficara em Paris, não negou que George Riley, o amigo ausente, podia ser lido como um alter ego do cineasta, onipresente mesmo que invisível. Mas Sabine Azéma, colaboradora regular do cineasta desde a década de 1980 e sua esposa desde 1998, disse ao a jornalistas que, por inevitável que fosse, era muito desagradável ouvir falar a cada novo filme de “testamento” cinematográfico. Como se a idade avançada de Resnais fosse mais importante ou mais interessante que a arte que ele produzia, como se estivessem todos à espera que ele morresse, em vez de fazerem o que o próprio cineasta fazia através dos seus filmes: celebrar a vida.
Mais razões que justificam o prêmio “inovação” atribuído ao novo filme (adquirido para distribuição portuguesa pela Alambique mas ainda sem data de estreia): a vontade de celebrar um cineasta que raramente se revelava publicamente e que procurava sempre convidar o público a ir à aventura consigo. Com Alain Resnais, nunca era apenas e sempre a mesma canção.
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