A região do Alto Solimões, na fronteira com o Peru e a Colômbia, já recebeu 85 toneladas de alimentos e remédios do plano emergencial de socorro às vítimas da seca no Amazonas. O material foi transportado em dois aviões modelo Hércules, da Força Aérea Brasileira (FAB), que fizeram cinco viagens de Manaus até Tabatinga. Cinqüenta soldados do 8º Batalhão de Infantaria da Selva trabalharam no descarregamento dos mantimentos e no transporte até os armazéns das prefeituras de Tabatinga, Atalaia do Norte e Benjamin Constant.
- Na fronteira não se faz nada sem parceria. Agora, as prefeituras são responsáveis por distribuir o material para as comunidades isoladas - explicou o comandante do Comando de Fronteira Solimões, tenente-coronel Jorge Fernando de Almeida.
Ainda na terça-feira, barcos regionais começaram a distribuição de 500 cestas básicas para comunidades rurais de Tabatinga e de outras 500 cestas básicas para comunidades rurais de Benjamin Constant. No mesmo dia, uma balsa saiu de Tabatinga para a sede de Atalaia do Norte, levando 1.230 cestas básicas. As informações são do tenente-coronel Roberto Rocha, da Defesa Civil Estadual.
O plano emergencial deve atender 32 mil famílias de 914 comunidades ribeirinhas em todo o estado. Praia de Fátima fica próxima à sede de Tabatinga, também sofre com a seca, mas não receberá assistência. As 22 famílias que moram lá não passam fome, porém enfrentam outras dificuldades. "Estamos com problema da água, problema de doença também", disse a agricultora Ermozinda Assis de Souza. A filha caçula dela, Lígia de Souza, 13 anos, precisou ir à Tabatinga procurar um médico, porque sua pele ficou vermelha e inchada. "O doutor passou um remédio e falou que não é mais para ela tomar banho nesse igarapé daqui de trás de casa. Mas a água da chuva só dá para a gente beber", disse a mãe, mostrando a água de coloração verde que a família está usando para a higiene pessoal.
- A seca aumentou o número de casos de diarréia na comunidade também. A gente trata só com soro caseiro porque estamos sem medicamentos. Só tenho esparadrapo - afirmou o agente comunitário de saúde, Luís Renato Carvalho.
Os moradores de Praia de Fátima produzem, em média, três mil paneiros (40 litros) de farinha de mandioca por ano, segundo o presidente da comunidade, Antônio Mourão do Nascimento. O povoado é ligado a Tabatinga pelo rio Solimões e, por terra, são oito quilômetros de trilha na mata até o asfalto, nos quais só passa motocicleta.
- Sempre nós levamos nossos produtos em canoa mesmo. Mas a gente carregava uma coisa mais perto, porque a água sempre ficava ao lado da casa. Hoje nós andamos 30, 40 minutos chegar à beira do rio - contou Antônio.
Na escola municipal de Limeira, uma comunidade vizinha à Praia de Fátima, a direção teve que mudar o horário das aulas das turmas de 5ª a 8ª séries, que aconteciam à tarde e passaram a ser de manhã. Os 105 alunos vivem em outras três vilas rurais e, como não conseguem chegar até a escola usando a canoa, precisam caminhar por cerca de uma hora na mata - com as aulas de manhã, eles fazem o trajeto durante o dia.
- A seca está dificultando a vinda dos alunos para a escola - disse a professora Francislane Gomes, que mora na sede de Tabatinga e, mesmo quando não há seca, caminha duas horas para ir e voltar do trabalho.