Rio de Janeiro, 04 de Maio de 2026

Ainda resta muito abacaxi por descascar

Por Hugo Cores: Tem havido erros. Algumas porcelanas quebradas. Mas o mundo não acaba aí. Isto aqui está recém começando. Ainda tem muito abacaxi para descascar e não podemos nos dar ao luxo do desânimo e da dispersão. Uma análise do governo Tabaré Vázquez. (Leia Mais)

Sábado, 22 de Outubro de 2005 às 08:28, por: CdB

 

Nos últimos dias, tem-se falado muito do mal-estar das bases da Frente Ampla, das desfiliações massivas e do suposto divórcio que existe entre a direção e os militantes. Estranhamente, muitas destas "informações" vêm daqueles que, em nome de um suposto pós-modernismo, referem-se à militância e às identificações ideológicas como fatos do passado, como refugos atávicos que qualquer esquerda moderna deveria ter jogado na lata de lixo faz tempo.

Desconfortos e divórcios

O ponto álgido desta tensão foi o debate no Parlamento da autorização solicitada pelo Executivo para que a Armada participasse na Operação UNITAS. Foi, realmente, um momento traumático que não deixou a esquerda muito bem. De fato, somente a conduta adotada pelo deputado Chifflet representou o sentimento da maioria dos frentistas.

Uma das chaves desta situação é que o governo deverá aceitar as críticas e procurar corrigir posições e estilos de trabalho não-participativo que não contam com respaldo na força política. A militância da Frente Ampla, por sua vez, terá que multiplicar sua atuação em defesa das conquistas que, pouco a pouco, este governo possa ir alcançando. E gerar outras.

O que não podemos fazer é estimular a incompreensão e a desmobilização. Grande parte do que resta para ser feito vai precisar de luta. Confronto de idéias, crescimento da mobilização popular, denúncia dos privilégios, desmoralização dos remanescentes autoritários que sobrevivem no Estado e todo o resto. E como é que tudo isto pode ser feito, a não ser agindo com união?

O que está em jogo

Acho que deveria estar claro para todo o mundo que uma coisa são os erros e discussões internas com o nosso governo e outra coisa os benefícios que as forças de direita esperam obter dessas circunstâncias. O que está em jogo é o aprofundamento fundamental que significou a conquista do governo por parte da esquerda nas eleições de 31 de outubro. Nesse ponto, houve um corte transcendental na história do país.

Se o fato de ter nas mãos as ferramentas do governo é uma experiência nova e perturbadora para a esquerda, estar longe delas é desesperador para aqueles que sempre ocuparam os espaços de privilégio. Mesmo que, por enquanto, sejam apenas simbólicos, os efeitos da intempérie são sentidos como um perigo grave.

Um programa popular e os fatores do retrocesso

Não há dúvidas quanto ao caráter popular do programa que anima este governo, a busca dos dirigentes, nos grandes e pequenos temas, por soluções favoráveis para os mais pobres, para os trabalhadores e para os excluídos.

Alguns desses passos são relativamente pequenos diante da gravidade da situação, como os esforços feitos por meio do Plano de Emergência. Mas eles têm um significado profundo, que está no fato de que pela primeira vez um governo reconhece a gravidade da miséria existente e tenta corrigir os problemas nos elos mais fracos.

A gratuidade da passagem escolar na ampla região metropolitana é uma conquista importante. Quanta briga custaram, e quantas pauladas, há 30 ou 40 anos atrás, as reduções de preço das passagens, obtidas pela luta dos estudantes!

Outros fatos têm uma importância ainda maior, como a convocatória dos Conselhos de Salários, que representam centenas de milhares de trabalhadores. Agora, de modo marcante e pela primeira vez, incluindo também as empregadas domésticas. Novos sindicatos, grêmios mais fortes, maiores desafios para transmitir às novas gerações tudo o que tem sido aprendido em décadas de lutas.

No mesmo sentido aponta a decisão de amparar o exercício dos direitos sindicais, a negativa de despejar os locais ocupados pelos trabalhadores no exercício do direito de greve.

Essas diretrizes são ainda, em certo sentido, virtuais.

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