A Aids terá matado 20% de todos os trabalhadores rurais do sul da África até 2020, disseram pesquisadores na quinta-feira. Isso pode ameaçar a produção de alimentos numa região que já enfrenta escassez de comida.
Mas, mesmo com o grande desemprego em todo o continente, a perda de poder aquisitivo pelas famílias que ficarem sem seu principal provedor pode ser um problema ainda maior que a falta de trabalho, disseram os cientistas.
- Não é tão simples quanto dizer que haverá uma redução de 20% nas colheitas - disse o especialista em HIV/Aids Smangaliso Hllengwa, numa conferência sobre Aids e segurança alimentar em Durban.
- Mas obviamente terá um impacto significativo - disse Hllengwa, que é consultor do Nepad, um programa pela recuperação econômica da África.
A Organização de Alimentação e Agricultura (FAO) da ONU ratificou a previsão, afirmaram os pesquisadores presentes à conferência, estimando que 25% da mão-de-obra agrícola vai morrer até 2025. Os dados foram obtidos com base em taxas nacionais de infecção por HIV e em pesquisas locais.
Cerca de 25 milhões de africanos já são portadores do vírus HIV.
No país que mais produz alimentos na região, a África do Sul, os fazendeiros dizem já ter perdido 20 por cento de sua força de trabalho só nos últimos cinco anos, mas a produção não foi afetada, e a expectativa é que a produção de milho seja a maior em uma década.
- Estamos perdendo trabalhadores a uma taxa muito alta - disse o produtor de milho Bully Botma, presidente da Grain South Africa.
- Mas há tanta gente procurando emprego que isso não está afetando a produção.
Um terço dos sul-africanos está desempregado. Mas, para as famílias dos trabalhadores mortos, a perda de renda pode ser devastadora, afirmam especialistas.
- O trabalho pode não ser problema, mas o dinheiro sim - disse Stuart Gillespie, pesquisador do Instituto Internacional de Pesquisa de Política Alimentar.
A escassez de alimentos em 2002 fez com que algumas pessoas previssem uma "nova variante da fome" provocada pela Aids, em que não haveria trabalho suficiente para alimentar a população.
Até agora, os temores não se concretizaram.
- Ainda é uma hipótese possível - disse Gillespie.
- Não aconteceu naquela época, mas isso não significa que não vai acontecer. Pode ser em 2005, em 2008.
Em alguns casos, segundo os pesquisadores, a Aids pode reduzir a renda rural.
- As pessoas ficam doentes e não podem trabalhar, e quando não se trabalha não há dinheiro para a comida ou para pagar a escola - disse Ziphi Mzila, 30, à Reuters em Msinga, a cerca de três horas de Durban. Ela foi diagnosticada com o HIV em 2000, depois que a doença a impediu de cultivar tomates, sua maior fonte de renda para alimentar os três filhos. Ela suspeita que o menor deles também tenha o vírus.
Aids matará 20% dos agricultores do sul da África até 2020
Quinta, 14 de Abril de 2005 às 12:25, por: CdB