Aracampina é uma comunidade de 600 habitantes, localizada na ilha de Ituqui, às margens do rio Amazonas, no Pará. A população de lá vivia basicamente da pesca e da agricultura familiar, mas há alguns anos passou a criar gado, a plantar seringueiras e cacau. Essas atividades são desenvolvidas na beira do rio, em áreas que durante metade do ano ficam alagadas. São as várzeas, uma região de terras férteis, mas de ecossistema frágil.
- A gente sente que as pastagens naturais estão diminuindo e que os igarapés estão ficando assoreados. Por isso, resolvemos iniciar o reflorestamento - contou um dos coordenadores da Associação de Mines e Pequenos Pescadores e Produtores de Aracampina (Ampa), Adelson Coelho, em entrevista nesta sexta-feira.
São 55 famílias de ribeirinhos que começaram a tirar mudas de árvores nativas da floresta para replantar na várzea. Desde 1997, eles já trabalharam com 22 espécies, a maior parte de árvores frutíferas.
- A gente já descobriu as cinco que são mais adaptadas: catuari, urá, tarumã, munguba e adão. Elas crescem mais rápido e resistem melhor às enchentes - revelou Coelho.
Em quatro anos, entre 1997 e 2000, a Ampa plantou 1,5 mil árvores às margens do Amazonas. Em 2002, a entidade conseguiu um financiamento de aproximadamente R$ 80 mil do Projeto Manejo dos Recursos Naturais da Várzea, do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (ProVárzea/Ibama). Nos dois anos seguintes, 2003 e 2004, os ribeirinhos plantaram mais 3.500 mudas.
Mais árvore na beira do rio significa menos terra que irá para o fundo, diminuindo a profundidade da água. Outra vantagem é que os frutos servem de alimento para os peixes. "O recurso pesqueiro é a principal fonte de renda para as comunidades", afirmou Coelho.
- Então, você mantendo a comunidade organizada, garante o recurso natural para as atuais e futuras gerações.
A ilha de Ituqui fica a quatro horas, de barco, de Santarém, município de 274 mil habitantes, cuja sede vem inchando em função do avanço da monocultura da soja e do anúncio de asfaltamento da rodovia BR-163 (Cuiabá-Santarém).
- As pessoas de Aracampina não têm o intuito de sair para Santarém, porque lá está muito violento. Por isso, temos que cuidar bem da nossa comunidade - disse Coelho.
Além da recuperação de áreas degradadas, a Ampa atua com a proteção de pitiús (espécie de tartaruga pequena da Amazônia, cuja carne é muito apreciada na região). O trabalho é feito pela identificação e demarcação dos locais de desova do pitiú, para que não sejam violadas pelos homens nem pisoteadas pelo gado.
- Quando a cova está em praias distantes, a gente faz o transplante delas para mais perto, para conseguir vigiar melhor - contou Coelho. O monitoramento jás possibilitou a sobrevivência de 16,2 mil filhotes de pitiú em Aracampina desde 2001.