Rio de Janeiro, 13 de Setembro de 2026

Agência 'estelionatária' não pretende rebaixar de novo as notas do Brasil

Terça, 25 de Março de 2014 às 10:41, por: CdB
belluzzo.jpg
Belluzzo foi professor da presidenta Dilma, na Unicamp
A agência de classificação de risco Standard & Poor's, classificada como 'estelionatária' em entrevista do conceituado economista Luiz Gonzaga Belluzzo, indicou nesta terça-feira que não vê novo rebaixamento para o Brasil, destacando que isso só acontecerá se os indicadores externos tiverem forte deterioração e se o governo romper seu compromisso com políticas pragmáticas. – Reduzir os ratings de novo é realmente um cenário que nós não estamos contemplando – disse a analista da agência Lisa Schineller em uma conferência telefônica com analistas e jornalistas. A S&P disse que, apesar de ter identificado uma certa deterioração nas políticas fiscal e monetária brasileiras, o governo continua comprometido com o combate à inflação e com o cumprimento de metas de superávit primário. Na segunda-feira, a S&P cortou o rating soberano do Brasil para "BBB-", a faixa mais baixa da categoria de grau de investimento, ante "BBB", com perspectiva estável. Apesar disso, não havia grande impacto sobre os mercados brasileiros nesta terça-feira, uma vez que o movimento já era esperado pelos investidores e, por isso, já havia tinha precificado. Assim, o dólar tinha leve queda ante o real, assim como os juros futuros, enquanto a Bovespa subia. Sem moral A imagem da S&P, certamente, não melhorou com o corte dos ratings para o Brasil. Ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, o economista Luiz Gonzaga Belluzzo classificou de "estelionatária" a decisão da agência de classificação de risco de rebaixar a nota do Brasil. – O que vem a ser isso, essa decisão das agências? Que significado isso tem? Isso é coisa de estelionatários. Eles, na verdade, participaram de um estelionato na crise de 2008 – disse, em entrevista ao repórter Luiz Guilherme Gerbelli, do diário conservador paulistano O Estado de S.Paulo, nesta manhã. Na avaliação de Belluzzo, no máximo, haverá um "tremelique" no mercado, mas pouca coisa deve mudar por causa da baixa credibilidade das agências. – As agências de risco não têm nenhuma credibilidade depois da crise de 2008. Elas é que deveriam ser rebaixadas. Como se pode acreditar numa agência de risco que deu nota AAA a um pacote de créditos sem que soubessem o que tinha dentro? O que eles alegaram agora? Que piorou a situação de endividamento da economia brasileira? Mas qual é a nota que elas (agências) dão aos Estados Unidos e à França? – questionou Belluzzo. Segundo observa o economista, "a dívida brasileira é de 60% do Produto Interno Bruto (PIB), a dívida líquida de 30%. O Brasil teve superávit todos os anos, caiu um pouco agora, para 1,9% do PIB. Mas ainda assim somos um dos poucos países com superávit". – O que vem a ser isso, essa decisão das agências? Que significado tem? Isso é coisa de estelionatários. Eles, na verdade, participaram de um estelionato na crise de 2008. É inacreditável ter que dar um opinião sobre uma coisa tão evidentemente inexpressiva, todo mundo acredita na S&P, na Moody's, mas esse pessoal das agências nem formação econômica decente tem – afirmou. A decisão da S&P, segundo Belluzzo, "estava tomada há algum tempo, mas o efeito vai ser muito passageiro". – Como o Brasil continua com grau de investimento, vai haver um pouco de turbulência e depois as coisas voltam ao normal. Outra coisa: no Brasil, quando a inflação mostrou um pouco de ímpeto, o BC imediatamente elevou a taxa de juros, mas enfim, não há o que fazer. Estamos sob a observação desses estelionatários, vai se fazer o quê? Como uma pessoa honesta pode acreditar nas avaliações deles ao longo dos anos 2000 até a crise? Se você ler o relatório do Congresso americano, feito depois da crise, você vai ver que as referências ao comportamento das agência eram casos de mandar para a cadeia. Eles burlaram a confiança dos investidores, de todo o mundo – afirmou. Com tranquilidade A redução dos ratings do Brasil, para o líder do PT no Senado, Humberto Costa (CE), também foi minimizada. Para o senador, a queda da nota de risco do país não leva em consideração o cenário do início deste ano, com crescimento industrial, de emprego, do Produto Interno Bruto (PIB) e de inflação sob controle. – Vejo com absoluta tranquilidade [o rebaixamento], o Brasil permanece na condição de baixo risco de investimento, continua com seus pressupostos econômicos bastante sólidos – avaliou o líder, depois de se reunir com a ministra da Secretaria de Relações Institucionais, Ideli Salvatti. Segundo Humberto Costa, o assunto não foi discutido no encontro entre a ministra e líderes do governo na Câmara e no Senado. Para o Ministério da Fazenda, o rebaixamento da classificação de risco do Brasil é inconsistente com as condições da economia brasileira. Em nota, a pasta informou que a redução da nota é contraditória com a solidez e os fundamentos do país. No texto, o ministério reafirmou o compromisso com a meta de superávit primário – economia para pagar os juros da dívida pública – de 1,9% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2014 e com o equilíbrio fiscal nos próximos anos. Além disso, a pasta informou que o governo continuará a trabalhar para dar prioridade ao investimento e promover o crescimento sustentável no longo prazo. Para o Ministério da Fazenda, a avaliação sobre a situação fiscal brasileira está equivocada por não levar em conta que o país tem gerado um dos maiores superávits primários do mundo nos últimos 15 anos e está reduzindo o endividamento público. “Em 2013, cabe salientar, fizemos um superávit primário de 1,9% do PIB, suficiente para reduzir o endividamento público, tanto bruto (de 58,8% do PIB para 57,2% do PIB) quanto líquido (de 35,3% do PIB para 33,8% do PIB)”, destacou a pasta. Em relação ao crescimento econômico, uma das causas apontadas pela agência para o corte da nota de classificação, o ministério ressaltou que o país cresceu 17,8% desde o início da crise econômica internacional, em 2008, e acumula uma das maiores taxas de crescimento no período entre os países do G20 (grupo das 20 maiores economias do planeta). “No ano passado, o país cresceu 2,3%, desempenho superior à maioria dos países deste grupo”, conclui a nota.
Tags:
Edições digital e impressa