Os afegãos vão às urnas neste domingo numa histórica eleição parlamentar, mas têm dúvidas sobre se as novas assembléias vão ser uma ajuda ou um entrave ao presidente Hamid Karzai.
Cerca de 12,5 milhões de afegãos podem votar para a Câmara dos Deputados, que tem 249 membros, e para as assembléias em cada uma das 34 Províncias. O entusiasmo é grande, com muita gente ávida por votar na primeira eleição legislativa em quase 30 anos.
A votação, gerenciada pela Organização das Nações Unidas (ONU), ocorre quase um ano depois de Karzai vencer uma eleição presidencial e quase quatro depois da derrubada do regime Talebã por tropas dos EUA e seus aliados locais.
- Estas eleições são muito importantes porque até agora foi um regime presidencialista. Karzai foi eleito, mas é um regime de um homem só. Ter um Parlamento é muito importante para dar uma dimensão democrática ao regime - disse Oliver Roy, analista político do Centro Nacional de Pesquisa Científica da França.
A segurança, especialmente no sul e no leste, onde o Taliban continua bastante ativo, é a maior preocupação, mas autoridades afegãs e norte-americanas se dizem confiantes para a votação.
Cerca de 100 mil soldados, inclusive 22 mil sob comando dos EUA e 10 mil sob comando da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), vão oferecer segurança contra as ameaças do Talebã, depois da morte de sete candidatos.
Karzai, de 47 anos, não tem partido e se manteve afastado da campanha, exceto para incentivar os eleitores a escolherem candidatos honestos que ponham o país acima de interesses de facções.
O presidente enfrenta problemas com o Talebã, com a produção de narcóticos, que é a maior do mundo, com a corrupção e com a ampla frustração com a falta de melhora na vida das pessoas.
Para Washington, que tem 20 mil soldados combatendo o Taliban no país, numa invasão iniciada em represália aos atentados de 11 de setembro de 2001, uma votação bem-sucedida permitiria ao presidente George W. Bush mostrar o Afeganistão como uma história de sucesso, contrabalançando as más notícias provocadas pelo Iraque e pelo furacão Katrina.
Em entrevista nesta quinta-feira, o embaixador norte-americano em Cabul, Ronald Neumann, disse não ver problemas para Karzai.
- Não há um grave cenário negativo que eu veja aqui, em parte porque não há um partido presidencial, então não há a questão de o partido presidencial perder. Em algumas questões o Parlamento dará muito apoio ao presidente, mas em algumas questões será ao contrário - disse ele.
Mas analistas dizem que impasses e jogos de cena políticos no Parlamento podem atrasar reformas no Judiciário e no governo e prejudicar os esforços para criar uma economia saudável, sem a influência do narcotráfico.
A oposição a Karzai é liderada por Yunus Qanuni, um político de uma facção "mujahideen" (que faz a guerra santa) que ajudou os EUA a derrubarem o Taliban, em 2001. Ele ficou em segundo lugar, bem atrás de Karzai, na eleição presidencial.
Uma das primeiras tarefas do Parlamento será aprovar o gabinete de Karzai, e Qanuni já disse que ele e seus aliados rejeitarão alguns dos indicados.
Mas nem isso deve provocar uma crise, segundo Neumann.
- Este governo cairia porque perdeu um ou dois ministros? Acho que não - disse.
Cerca de 160 mil funcionários foram treinados para a eleição, e uma enorme operação transporta material eleitoral para 6.000 seções por todo o país, que tem algumas das áreas mais inacessíveis do mundo. Burros e camelos são usados para que cédulas e urnas cheguem a alguns lugares.
Os poderosos líderes das facções "mujahideen", que derrotaram os soviéticos na década de 1980 e se enfrentaram mutuamente na de 90, matando dezenas de milhares de civis, foram autorizados a concorrer nas eleições, apesar das acusações de crimes de guerra.
Eles competem com milhares de candidatos indepe