Rio de Janeiro, 01 de Janeiro de 2026

Aécio e Temer, em situação difícil, tentam escapar da Justiça

Em diálogo gravado entre Aécio Neves e o empresário Joesley Batista, como parte do acordo de delação premiada, o senador mineiro sugere que Temer deveria aproveitar a crise gerada pela Operação Carne Fraca e demitir o diretor da PF

Terça, 30 de Maio de 2017 às 11:01, por: CdB

Em diálogo gravado entre Aécio Neves e o empresário Joesley Batista, como parte do acordo de delação premiada, o senador mineiro sugere que Temer deveria aproveitar a crise gerada pela Operação Carne Fraca e demitir o diretor da PF.

 

Por Redação - de Brasília e Sao Paulo

 

O senador afastado, Aécio Neves (PSDB-MG) vinha pressionando o governo Michel Temer para afastar o diretor da Polícia Federal, Leandro Daiello. E parece ter conseguido o objetivo com a nomeação do ex-integrante do Tribunal Superior Eleitoral Torquato Jardim para o Ministério da Justiça. Em suas primeiras declarações no cargo, Jardim adiantou que Daiello poderá ser substituído, em breve.

Em diálogo gravado entre Neves e o empresário Joesley Batista, em 24 de março, como parte do acordo de delação premiada, o senador mineiro sugere que o governo deveria aproveitar a crise gerada pela Operação Carne Fraca e demitir o diretor da PF.

— Não vai ter outra (oportunidade). Porque nós nunca tivemos uma chance onde a PF ficou por baixo, né? — disse o dono da JBS.

Com o que Aécio Neves concordou:

— Aí vai ter quem vai falar, 'é por causa da Lava Jato'. (O governo pode responder) 'Não, é por causa da Carne Fraca'".

— Tem que tirar esse cara — disse Joesley.

Aécio repete:

— Tem que tirar esse cara.

Reunião urgente

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No abraço de afogados, Temer e Aécio tentam, desesperadamente, encontrar uma saída para os processos a que respondem no STF

No meio da noite passada, em um hotel 5 estrelas da capital paulistana, diante da divisão que se estabelece no PSDB após o afastamento de Aécio Neves e o risco de prisão iminente de Rocha Loures, o presidente de facto, Michel Temer chamou o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e o presidente interino da legenda tucana, senador Tasso Jereissati (CE) para uma conversa. Jereissati é forte candidato ao lugar de Temer, em uma possível eleição indireta.

Em situação tão delicada quanto a do seu chefe em relação à Lava Jato, o chefe da Secretaria Geral, Moreira Franco, participou da reunião. Temer foi a São Paulo, oficialmente, para um encontro com empresários. Ele chamou FHC e Jereissati após tomar conhecimento de uma articulação do PSDB para lançar a candidatura do senador cearense à Presidência da República, caso uma eleição indireta ocorra nos próximos dias. O fato causou mal-estar com o DEM e deixou o PMDB ainda mais dividido.

Entendimento

Aliados de Temer avaliam que Jereissati foi afobado ao promover, há uma semana, em São Paulo, uma reunião com o governador Geraldo Alckmin, o prefeito João Doria e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso – todos correligionários – para discutir os rumos da política nacional, sem Temer.

Na quarta-feira da semana passada, após a reunião no apartamento do ex-presidente, na capital paulista, Alckmin foi o porta-voz do lançamento de Jereissati ao Planalto. O governador tucano disse, aos jornalistas, que ele e Fernando Henrique Cardoso “são os grandes nomes” em uma eleição indireta, após a queda de Michel Temer.

O presidente do DEM, senador Agripino Maia (RN), telefonou nesta segunda-feira para o representante tucano. Pediu um “esforço conjunto”, na tentativa de um entendimento entre as legendas. Jereissati, naquele momento, retirou sua provável candidatura. Em seguida, prometeu atuar com o PMDB na tentativa de uma saída para a crise política.

Lava Jato

Depois da sobrevivência de Temer aos processos jurídico e político a que está submetido, a Operação Lava Jato segue como o monstro a ser abatido no inconsciente da extrema-direita brasileira. O cerco às investigações se fecha. Além da possível demissão de Daiello, o corte de recursos às ações da PF se confirma. Trata-se de uma estratégia adotada para descarrilar o esforço de romper a cadeia da corrupção no país.

Durante a sabatina no Senado que aprovou a indicação de seu nome para o cargo de ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), em fevereiro, Alexandre de Moraes alegou que, ao longo de seu mandato no Ministério da Justiça, a Operação Lava Jato foi reforçada. Disse que teria contado com “mais delegados, mais agentes, mais peritos, mais orçamento”.

Informações classificadas

Apuração da agência de notícia Publica, no entanto, prova que os úmeros obtidos mostraram que a afirmação de Moraes é falsa. A Lava Jato, na realidade, foi reduzida no Governo Temer.

O levantamento de dados da Publica durou cerca de dois meses. Primeiramente, foi procurada a assessoria de imprensa da Polícia Federal, em Brasília. Foram solicitados dados que mostrassem evolução no número de delegados, peritos e agentes envolvidos desde o início, além do orçamento dedicado à Lava Jato. A PF afirmou que não poderia repassar os números, porque “não fornece dados sobre orçamento e quantitativo de servidores atuando em operações em curso”.

Segundo o órgão, “tais informações são classificadas”.

Dados públicos

Diante disso, a reportagem fez um pedido via Lei de Acesso à Informação (LAI). Solicitou o número de peritos, delegados e agentes envolvidos na Operação Lava Jato por mês. A contar de março de 2014 até fevereiro de 2017. Também foi solicitada a parcela do orçamento executado da PF destinado a esta investigação, de março de 2014 até fevereiro de 2017.

Quase um mês depois, o Serviço de Informação ao Cidadão da Polícia Federal enviou uma resposta ao pedido. De acordo com o documento, parte da solicitação não poderia ser atendida pois “informações que envolvem a mobilização de policiais federais possuem classificação de segurança secreta”. Não foram informados, na resposta, o número de peritos, delegados e agentes empregados na Lava Jato.

Rubricas

A reportagem recorreu da decisão. Argumentou que no próprio site da PF são divulgados números relativos à operação. Eles incluem uma estimativa do número de policiais envolvidos. Mais de 15 dias após o prazo final da LAI e seis dias após uma reclamação formal da reportagem junto ao serviço de comunicação da Polícia Federal, o número de policiais envolvidos em cada fase da Lava Jato foi recebido.

Segundo o primeiro documento enviado pela PF, a operação teve início em fevereiro de 2014. Ainda assim, somente em 2016 a unidade passou a receber recursos orçamentários destinados especificamente para a Lava Jato. “Entre 2014 e 2015 os recursos empregados originaram-se, em geral, do próprio orçamento da Polícia Federal. Ao passo que a partir de 2016 iniciou-se o procedimento de criação de rubricas específicas para a Lava Jato”, afirma o documento.

Dados da PF

A pasta revelou valores estimados, compostos por despesas com diárias e passagens. Além disso, material de consumo, material permanente e outros serviços à disposição da operação. Entre eles, vigilância, combustíveis, limpeza, suporte de informática.

Diante dos dados encaminhados, foi possível verificar, no entanto, que a fase que reuniu maior número de servidores foi a primeira. Aquela lançada em 17 de março de 2014, com 427 policiais envolvidos, denominada Lava Jato.

Em segundo lugar na quantidade de servidores participantes está a fase Xepa. Esta contou com 376 policiais e ocorreu em 22 de março de 2016, pouco antes do afastamento da presidente Dilma Rousseff. Antes também da nomeação de Alexandre de Moraes para o cargo de ministro da Justiça. Após essa fase, nenhuma outra superou a marca de 200 policiais envolvidos.

Omissão

Além da queda no orçamento, a agência apurou ainda que associações de agentes da PF acusam falta de apoio à operação. A Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal (ADPF) emitiu, em fevereiro, uma nota solicitando que Michel Temer alterasse a direção-geral da PF.

Segundo a associação, a atual diretoria não estaria atendendo às necessidades do órgão. “Sua constante omissão vem causando o enfraquecimento da instituição, pois não promove o apoio devido àqueles que se dedicam às grandes operações”, afirma a entidade no documento.

A reportagem entrou em contato com a ADPF. Pediu relatórios e levantamentos que mostrassem a suposta omissão da entidade em relação às grandes operações. A assessoria de imprensa da associação não enviou documentos nem concedeu entrevista à reportagem.

Conclusão

Com base nos dados fornecidos pela PF, "é impossível saber a evolução do número de delegados, agentes e peritos na Lava Jato desde 2014. Os dados de servidores envolvidos em cada fase, contudo, não mostram aumento em volume durante o governo Temer. Ou seja, sob a gestão de Moraes. Já a quantidade de recursos, item fundamental para o funcionamento das investigações, teve redução significativa”, afirma a agência.

E continua: “O orçamento executado caiu 43% no período em que Alexandre de Moraes comandou o Ministério da Justiça. Assim, a análise de dados oficiais e de outras fontes demonstra que a afirmação do atual ministro do STF, de que houve crescimento da Lava Jato em sua gestão, está incorreta”.

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