Após a Polícia Federal ter apreendido malas com R$ 10 milhões, na segunda, os advogados do deputado João Batista (PFL-SP), bispo da Igreja Universal do Reino de Deus, que estava com o dinheiro, vão entrar nesta terça-feira com liminar no Supremo Tribunal Federal (STF) para tentar liberar o que o próprio deputado disse ser dízimo dos fiéis da Igreja.
João Batista e outras seis pessoas detidas para prestar esclarecimentos foram liberadas pela Polícia Federal, depois de depor por 10 horas. O delegado disse que a questão principal é saber "por que esse dinheiro está tramitando fora do sistema financeiro, já que a igreja tem uma conta bancária". E que o deputado terá que provar agora a origem e o destino do dinheiro.
David Campos disse estranhar o fato de essa ser a "primeira vez que dinheiro da igreja é entregue direto a um deputado, sem usar um sistema financeiro". A PF suspeita de lavagem de dinheiro. Mas João Batista afirma que a Universal tem de 150 a 200 igrejas por estado, com 500 fiéis cada. Além disso, segundo o deputado, a Igreja completou 28 anos no sábado e promoveu comemorações no domingo, aumentando a arrecadação, o que poderia justificar a alta quantia em espécie encontrada pela Polícia.
- Se cada um contribui com R$ 20, R$ 10 milhões não é nada - retrucou João Batista.
João Batista, que já foi presidente da Rede Record e da Rede Mulher, admitiu que não é um procedimento rotineiro transportar altas quantias de avião, mas mostrou uma certidão assinada por ele no domingo, informando que transportaria dinheiro vivo, mas sem especificar o valor.
Ramos da Silva começou sua carreira política em 2001, e se elegeu deputado federal em 2002, com 121,2 mil votos. Entre 1999 e 2002, foi diretor-presidente das três emissoras de TV controladas pela Universal: Rede Record, Rede Família e Rede Mulher. Sua cota de rádio e TVs que adquiriu quando estava no setor de Comunicações também será investigada pelo Ministério Público Federal (MPF). A Receita Federal também investiga o deputado, que obteve R$ 56 milhões de origem suspeita em sua conta.
Durante o período no qual esteve no comando das emissoras da Universal, a igreja foi apontada como suposta beneficiária de esquema de evasão de divisas e sonegação fiscal, o qual teria injetado US$ 18 milhões no caixa da organização religiosa. O Ministério Público investiga a Universal desde 1999, acusando-a de manter duas empresas em paraísos fiscais. Dentre os negócios investigados está a compra da Record, do Rio de Janeiro, em 1992.
A declaração de bens que o deputado entregou à Justiça Eleitoral, em 2002, mostra um patrimônio pessoal de R$ 1,5 milhão e aparece como sócio de duas empresas - a New Tur - Novo Turismo e a LM Consultoria Empresarial e Participações, como revela o jornal Estadão desta terça-feira.
O senador Marcelo Crivella, um dos dirigentes da Universal, defendeu a declaração de João Batista, que afirmou ser do dízimo os R$ 10 milhões apreendidos, e ressaltou que a Universal tem mais de 10 mil filiais no Brasil. Na avaliação do senador, o dinheiro encontrado com o deputado João Batista "não tem nada a ver com dólar transportado na cueca" - referência ao dinheiro encontrado sexta-feira com José Adalberto Vieira da Silva, assessor parlamentar de José Nobre Guimarães, deputado estadual do PT no Ceará.