Costumo dizer a quem reclama muito da vida: "console-se! Dias piores virão!" É a sensação que tenho neste fim de ano, numa mescla de sentimento amargo de que o que der certo contribuirá para o que der errado. Acho bom eu ter uma explicação convincente para o que estou escrevendo. Tomemos como ponto de partida o Palácio do Planalto e proximidades.
Para 2005, uma única coisa é certa: a política econômica vai continuar, a numerologia continuará a ter precedência sobre a política, ou continuará sendo a moldura em que todas as políticas terão de se enquadrar, o Banco Central continuará a ser o bunker anti-republicano que é.
Está dando certo? Está. Quer dizer: para quem acredita nisso, e não são poucos. Não se trata de dizer que o Brasil é habitado por um bando de ingênuos. Não são poucos os que acreditam porque não são poucos os que se beneficiam dessas políticas, embora sejam muitos os que padecem com elas, mesmo os sobreviventes, os remediados.
Não houve nos anos recentes festa de consumo igual a deste Natal de 2004. As reportagens, os sorrisos dos líderes das associações comerciais era evidente. Lá vou eu criticar isto?
"Deuzulivre", como se diz no meu recanto gaúcho. Movamos a roda da economia, para a felicidade geral da nação. Quanto ao bem estar do povo.... É amargo ver os depoimentos dos empregados temporários do fim de ano sobre as esperanças, ou o temor quanto ao futuro imediato, sobre sua permanência nos empregos duramente conquistados.
Na farândula das compras, ter emprego fixo virou um presente de Papai Noel, uma recompensa belo bom comportamento. Estamos consolidando novamente o estado de sermos uma nação de melancólicos disfarçada pelos sorrisos álacres dos sucessos momentâneos.
Em meio a tal estado de espírito instalou-se a polêmica sobre qual o maior problema do Brasil, se a desnutrição ou a obesidade. E dêem-se pauladas nas políticas sociais do governo. O mesmo aconteceu com a questão habitacional, sob alegação de que muitas das famílias que se amontoam numa mesma casa o fazem porque querem (ainda que se saiba que essa convivência por vezes forçada é uma das razões da violência doméstica nos lares brasileiros). Acusa-se o Ministério das Cidades de superestimar os dados estatísticos (aquele do ministro Olívio Dutra, que talvez seja de todos os ministro mais demitido do país, pelo menos pela imprensa).
É claro que dados estatísticos confiáveis são importantes e tanto quanto se saiba o IBGE não tem dado mostras de descurar metodologias. Mas na discussão desfoca-se o problema. Em primeiro lugar, por estranha metodologia as crianças saíram fora dela. Quer dizer, sintomaticamente, descartou-se o futuro (afinal, isso de Brasil, país do futuro, já era...). Em segundo lugar, se a obesidade é um problema grave, tanto por educação como por recursos, pois comer bem é mais caro, num país como o Brasil, que tem produção para se alimentar e a outro país quase igual, a desnutrição crônica e ainda contada aos milhões é um problema obsceno.
Ter casa própria é um direito da cidadania, que nem em Cuba foi abolido. Pergunte-se ao favelado de qualquer favela se prefere se amontoar numa casa de parcos cômodos "por opção" ou se prefere viver em vizinhança com a família, cada um no seu recanto.
O problema portanto é que no Brasil há certos problemas ( e estou falando apenas de três, trabalho, nutrição e habitação) que são obscenos do ponto de vista ético e civilizatório. Aqui em 2004 houve "opções brasileiras" que merecem comentário.
Apesar dos comentários da esquerda em contrário, e da insatisfação inclusive deste colunista, ficou claro que a maioria do eleitorado apóia a política econômica conservadora do governo Lula no plano econômico.
Pode ser lugar comum, mas fica-se no plano do "não há outra opção". E devo reconhecer que com este governo, com sua inapetência para a ousadia política, para a sua carência de projeto de Estado e de nação, não há me