Investidores e analistas financeiros baseados nos Estados Unidos e na Europa, consultados pela BBC Brasil, disseram que passaram a acompanhar com mais atenção a crise política brasileira depois que surgiram acusações contra o ministro da Fazenda, Antonio Palocci.
Mas eles destacam que não há pânico. A abertura dos negócios em Nova York, nesta segunda-feira, provou isso: o Global 40, o papel mais negociado no mercado secundário de títulos da dívida externa brasileira, subia de 116.71 pontos (fechamento de sexta-feira) para 117.45 pontos - quanto maior o preço, menor o yield (prêmio ou rendimento que os investidores pedem pela exposição ao risco).
Por volta do meio-dia no horário de Brasília, o EMBI Brasil, indicador de risco do Brasil calculado pelo banco JP Morgan Chase, recuava 12 pontos-base após a deterioração registrada na sexta-feira, ou seja, a percepção de risco por parte dos investidores melhorava.
- Todo mundo está preocupado, mas ninguém está em pânico. A recepção do mercado (às acusações contra Palocci) foi péssima, mas a entrevista do ministro foi notável. Foi a primeira pessoa da equipe do governo e da liderança do PT que não teve o menor receio de enfrentar as perguntas dos repórteres - comentou Paulo Vieira da Cunha, economista-chefe para América Latina do HSBC, em Nova York.
Nuno Câmara, responsável pela área da América Latina do banco de investimentos Dresdner Kleinwort Wasserstein (DRKW), em Nova York, repete a avaliação feita por muitos analistas do mercado financeiro desde o início da crise de que a percepção dos investidores em relação ao Brasil continua positiva frente à permanência das diretrizes da política econômica do governo.
- No momento, ainda que o investidor comece a prestar mais atenção ao imbróglio político, ele está relativamente confiante em relação ao Brasil. Isso também está sendo ajudado pela abundância de liqüidez dos mercados de capitais. Na busca por um retorno alto, os investidores continuam colocando o seu dinheiro no Brasil - observa Câmara.
Jerome Booth, chefe da área de pesquisa da Ashmore Investment Management, de Londres, tem uma percepção semelhante à de Câmara.
- Do ponto de vista do investidor em títulos do governo, o importante a observar é o risco de crédito mínimo, a melhora da avaliação do risco de crédito, um moeda forte, enfim, questões técnicas e não políticas - disse.
Isso tudo muda, no entanto, se Palocci sair do governo, na avaliação de Christian Vecchi, diretor do fundo de investimentos Independent Global Managers, em Milão. Para ele, o ministro da Fazenda é o "ponto de referência da política econômica brasileira" e, sem ele, o mercado não ficará tranqüilo.Vecchi disse, inclusive, estar considerando vender as ações brasileiras que têm em seu portfólio algo que, segundo ele, o mercado deve começar a fazer daqui para frente.
- A minha preocupação como gerenciador de recursos de clientes é pensar em como o mercado vai agir. Tendo ganho no Brasil, sem tirar nada nesses três meses de crise, na hora que alguém mexe com o Palocci eu não sei o que vai acontecer. O meu ponto é: vale a pena continuar nessa posição? É uma questão de gerenciamento de risco. Daqui a pouco podem surgir mais denúncias - argumenta o analista italiano.
Acusações contra Palocci aumentam interesse pela crise
Terça, 23 de Agosto de 2005 às 08:10, por: CdB