Líderes iraquianos fecharam finalmente na terça-feira um acordo com os Estados Unidos e a Organização das Nações Unidas (ONU) para nomear um presidente e um governo que assumam o comando do país depois do fim oficial da ocupação, em 30 de junho.
Para selar o acordo, Washington acabou abrindo mão de sua opção para presidente para dar lugar ao chefe tribal Ghazi Yawar, 46. Ele foi nomeado e prestou juramento junto com um gabinete de tecnocratas numa cerimônia transmitida pela TV e cheia de simbolismo, num complexo construído por Saddam Hussein.
A explosão de mais um carro-bomba, próximo aos escritórios de um partido curdo, perto dali, lembrou o tamanho do desafio que aguarda o governo interino, cuja principal missão é realizar eleições democráticas no início do ano. Não estava claro o número de vítimas da explosão.
Mísseis atingiram as cercanias do complexo onde as autoridades se reuniam, e um iraquiano ficou ferido. E, perto de uma base norte-americana ao norte de Bagdá, um ataque suicida com carro-bomba matou 11 iraquianos.
Ghazi Yawar pediu à ONU que dê ao Iraque, através de uma resolução do Conselho de Segurança, "soberania plena" em 30 de junho, com maior comando sobre as forças estrangeiras. Devem permanecer do país 150 mil soldados estrangeiros, a maioria norte-americanos, para garantir a segurança, por tempo indeterminado.
Yawar é um engenheiro civil de formação norte-americana. Ele é da cidade de Mosul e comanda uma das maiores tribos do Iraque, que vai além das fronteiras do país. Tem apoio de curdos e xiitas e trabalhou por muitos anos na vizinha Arábia Saudita.
O novo primeiro-ministro, o xiita Iyad Allawi, afirmou que os iraquianos querem o fim da ocupação e que vão expandir seu Exército, mas aceitou que forças européias e norte-americanas defendam o país enquanto isso não acontece.
O nome de Yawar foi aceito pelos EUA e pelo enviado da ONU Lakhdar Brahimi depois de dois dias de tensão. Os EUA preferiam que o cargo, basicamente cerimonial, ficasse com o ex-ministro das Relações Exteriores Adnan Pachachi, 81, mas ele recusou.
O Conselho de Governo Iraquiano foi dissolvido.
A assessora de segurança nacional do presidente George W. Bush, Condoleezza Rice, negou que os EUA estivessem pressionando pelo nome de Pachachi e disse que o governo Bush estava muito satisfeito com a "excelente lista" de novos líderes.
"Não são marionetes americanas", acrescentou.
Na manobra que garantiu o acordo, os 22 membros do Conselho de Governo retiraram sua objeção ao nome de Pachachi, que, em seguida, renunciou à possibilidade de assumir a Presidência. Brahimi, então, nomeou Yawar como chefe de Estado. As autoridades anunciaram que o conselho estava sendo extinto.
Allawi indicou os membros do gabinete, que incluem apenas dois integrantes do Conselho de Governo.
Na cerimônia de juramento, não havia nenhuma presença estrangeira além de Brahimi, numa tentativa de demonstrar a independência iraquiana. Yawar usou vestimentas árabes tradicionais, enquanto a maior parte da nova administração vestia ternos.
Refletindo a composição étnica e os grupos religiosos do Iraque, foram nomeados dois vice-presidentes -- um xiita e outro curdo. Yawar, assim como Saddam Hussein, pertence à minoria sunita, que há tempos domina o Iraque. A maioria xiita está representada pelo primeiro-ministro.
Há cinco mulheres entre os 26 ministros e cinco secretários. O ministro das Relações Exteriores, Hoshiyar Zebari, viajou para Nova York para participar das negociações sobre a resolução do Conselho de Segurança da ONU.