O arquiteto e urbanista Lúcio Costa e o músico Tom Jobim foram amigos de longa data além de terem carreiras paralelas e importância fundamental na modernização do País, cada um no seu estilo. Por isso, nada mais natural que os acervos deixados pelos dois fiquem juntos no Jardim Botânico, à disposição de outros profissionais de suas áreas que queiram pesquisar o conhecimento que eles adquiriram e dos leigos que admiram a obra de ambos. Essa é a idéia do filho de Tom, Paulo Jobim, e da neta de Lúcio, Julieta Sobral, que estão trabalhando na organização, digitalização e divulgação de seus acervos.
Eles já têm o lugar onde o material ficará: um galpão no Jardim Botânico, que será transformado no Centro de Preservação da Memória, com projeto de Paulo Jobim, que é músico e arquiteto. Já têm também o dinheiro necessário para cuidar dos papéis (músicas, partituras, projetos, textos, desenhos, etc.) deixado pelos dois. O acervo de Lúcio Costa recebeu R$ 240 mil da Petrobrás e o de Tom Jobim, R$ 261 mil, também da estatal, sempre pela Lei Rouanet. "Só faz sentido investir nesses acervos para deixá-los ao alcance do maior número possível de pessoas", justifica Paulo Jobim. "Podíamos deixar o acervo do Lúcio Costa no Palácio Gustavo Capanema, cuja história se mistura com a dele mas não seria a mesma coisa. No Jardim Botânico, fica próximo do público em geral", completa Julieta.
A organização do acervo de Tom está mais adiantada porque o maestro, no fim dos anos 80, chamou a museóloga Vera Alencar, hoje diretora dos Museus Castro Maya, para iniciar o trabalho completado por Eliane Vasconcelos, da Casa de Rui Barbosa. O material em papel já está, em parte, digitalizado e pronto para entrar na página do Instituto Tom Jobim na internet, ainda em criação, embora Paulo ainda não esteja satisfeito com o programa. "Está muito careta. As informações foram fichadas, mas é preciso arrumar um modo lúdico de encontrá-las e isso ainda está em estudos", explica ele. "A parte sonora e de fotografia, que é muito grande, também precisa ser trabalhada. Hoje há, na internet, o clubedotom, página criada por Luiz Roberto Oliveira, que é bem completo, mas logo haverá o oficial."
O acervo de Lúcio Costa requer mais trabalho. Ficou no prédio em que ele morava e tinha escritório, no fim do Leblon, e só foi mexido em 2002, quando o Paço Imperial fez a exposição do centenário de seu nascimento. E ele guardou tudo o que produziu desde os 12 anos. "Meu avô era humilde no sentido nobre do termo mas não tinha falsa modéstia. Desde criança se programou para ser uma pessoa importante para o País", conta Julieta. "Só que sua organização era muito particular e o material está guardado em caixas, em verdadeiras camadas geológicas, que precisam ser identificadas de acordo com a época em que foi produzido. Tem projetos com redações de colégio da minha avó, aquarelas que pintou para vender com plantas em perspectiva. Tem até croquis de roupas que ele desenhava para a vovó. Temos 15 meses para organizar este acervo, mas nem sabemos direito o que tem lá."
O material ficará em contêineres dentro do galpão e as consultas serão feitas em computadores com animações, comparando os projetos de Lúcio Costa com o que foi realizado (caso do Plano Piloto de Brasília, que foi quase totalmente executado, e da Barra da Tijuca, quase totalmente ignorado) ou as diversas versões que Tom deu a suas músicas enquanto compunha, como ocorre no CD prefácio de Chico Buarque, que acompanhava o livro Tom Jobim, Um Homem Iluminado. "Para isso, foi fundada a Associação de Cultura e Meio Ambiente, uma oscip (Organização Social Civil de Interesse Público) que vai administrar o Centro de Preservação de Memória do Jardim Botânico, onde, de início, ficarão os acervos do Tom e do Lúcio Costa, um centro de memória dos índios, a cargo do Aylton Kranec e, possivelmente, o da escritora e diretora de teatro Maria Clara Machado", adianta Paulo Jobim.
Apesar de 25 anos mais velho que
Acervos de Tom Jobim e Lúcio Costa serão reunidos
Segunda, 03 de Janeiro de 2005 às 18:08, por: CdB