Rio de Janeiro, 29 de Outubro de 2026

AAA 8 de Setembro de 2011 - 22h46 Obama anuncia pacote para proteger emprego e reverter crise

Quinta, 08 de Setembro de 2011 às 17:47, por: CdB

O presidente dos EUA, Barack Obama, fez um discurso ao congresso na noite desta quinta-feira, 8, apresentando e defendendo seu projeto de “lei do emprego” como o caminho para superar a estagnação da economia, reduzir o número de desempregados, que chega a 25 milhões, segundo estimativas oficiosas, e reconduzir o país à liderança da economia mundial.

O pacote prevê gastos de 447 bilhões dólares e Obama fez questão de apresentá-lo como uma obra “bipartidária”, afiançando que não eleva o déficit público e contempla muitas bandeiras dos republicanos. “Tudo nesta proposta tem sido apoiado por democratas e republicanos e tudo [que for gasto] vai ser compensado”, assevera.

Alívio fiscal

De acordo com o presidente, o projeto “vai reduzir impostos que incidem sobre os salários pela metade para todos os trabalhadores americanos e todas as pequenas empresas”.

O principal ponto do pacote, segundo o jornal Valor, é prorrogar e ampliar um alívio fiscal nos salários dos trabalhadores. A alíquota da previdência sobre os salários dos trabalhadores foi reduzida de 6,2% para 4,2% este ano e deixa de vigorar no final de 2011. O governo Obama quer prorrogar essa medida e ainda reduzir a alíquota para 3,1%, o que deve custar aos cofres do governo US$ 240 bilhões, incluindo um corte semelhante na alíquota da previdência paga pelos empregadores.

Cenário político

Obama, que enfrenta a mais baixa taxa de aprovação de seu governo e uma taxa de desemprego historicamente alta de 9,1%, também propôs prorrogar o benefício de auxílio-desemprego a um custo de US$ 55 bilhões, modernizar escolas por US$ 30 bilhões e investir em projetos de infraestrutura de transporte que vão custar outros US$ 50 bilhões.

No discurso, o presidente reconheceu o declínio da liderança econômica dos EUA no mundo e disse que seu plano pode reverter a tendência histórica. “Se dermos os incentivos corretos, a América vai ser a número 1 novamente”. Defendeu os investimentos em infra-estrutura e educação assegurando que “estamos trabalhando para reconstruir a América”.

Não na China

Registre-se referências diretas à grande rival do Oriente e à chamada deslocalização da indústria: “Vocês vão poder construir... aqui na própria América, não na China”. Obama também ambiciona mais exportações dos EUA, mais produtos ´made EUA´ no planeta, e para isto apregoa a necessidade de ampliar os acordos de livre comércio. “É hora de abrir caminho para uma série de acordos comerciais que vão tornar mais fácil às companhias americanas vender seus produtos no Panamá, Colômbia e Coreia do Sul, e ao mesmo tempo ajudar os trabalhadores cujos empregos estão sendo afetados pela concorrência global”.

Para muitos ouvidos o discurso de Obama soou como uma cartada algo desesperada para a batalha política de 2012, na qual busca a reeleição. Republicanos classificam o pacote de demagogia eleitoral. Mas o fato é que a economia da maior potência capitalista do mundo resvala novamente para a recessão e parece óbvio que alguma coisa deve ser feita e com urgência.

Obama, que foi eleito com apoio massivo da classe trabalhadora prometendo uma solução para a crise, a redução do desemprego, o fim da guerra no Iraque, o fechamento da base Guantânamo e tantas outras proezas, amarga hoje o mais elevado índice de desaprovação do seu governo. Ele talvez tenha imaginado que o assassinado de Bin Laden garantisse a reeleição, como a “guerra ao terror” de Bush em 2001, mas é notório, e indiscutível, que o desespero de milhões de trabalhadores amargando o desemprego já não pode ser ignorado.

Foco errado

O resultado da “lei do emprego” de Obama será melhor avaliado ao longo dos próximos meses. Mas não é difícil notar que a reação vem tarde. O governo e o Federal Reserve (FED, banco central dos EUA) gastaram o grosso da munição que o Estado dispõe para fazer frente à crise no resgate do sistema financeiro, negligenciando a necessidade de proteger a classe trabalhadora, o que significa investir na criação de empregos e no fortalecimento do setor produtivo. Não foi o que ocorreu.

Derramaram trilhões de dólares na economia. O déficit público subiu a 9,9% do PIB em 2009 e 10,6% em 2010, devendo alcançar 10,8% neste ano, segundo estimativas do FMI. A dívida pública extrapolou os limites e ensejou um conflito entre republicanos e democratas no Congresso que abalou os mercados de capitais e resultou no rebaixamento da classificação de risco dos EUA. Agora, com o governo de mãos amarrados pelo acordo em torno dos limites da dívida pública, as opções da Casa Branca são mais estreitas.

O governo chegou ao ponto de estatizar a GM para proteger um símbolo do poder industrial do império, mas ironicamente o plano de reestruturação da multinacional, com um custo estimado em R$ 50 bilhões, reduziu unidades produtivas e empregos da montadora nos EUA e estimulou a chamada deslocalização, via expansão dos investimentos na China e no Brasil. Neste caso, a intervenção do Estado foi responsável pelo aumento do número de operários desempregados. É a lógica da chamada globalização.

A proposta apresentada por Obama, com valor bem modesto comparado aos anteriores, não é muito convincente, apesar da aparente defesa da pequena empresa e do trabalhador. Quanto à pretensão de reposicionar a economia estadunidense no topo do ranking mundial trata-se de uma grande, e inevitável, ilusão.

Da Redação, Umberto Martins, com agências

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