Rio de Janeiro, 08 de Novembro de 2026

A Voltaire negra

Domingo, 17 de Fevereiro de 2008 às 11:39, por: CdB

Uma africana nascida na Somália há 41 anos, está começando a ser chamada de Voltaire negra por intelectuais franceses. Voltaire, considerado um dos precursores da Revolução Francesa, se notalizou como provocador e por ironizar e não acreditar nos dogmas da Igreja católica.

Ayaan Hirsi Ali é chamada de versão negra de Voltaire por ironizar, criticar, não aceitar e não acreditar nos escritos de Maomé, constantes do Corão. Tanto que circula na Holanda, onde chegou a ser deputada, uma ameaça de morte proferida pelos autores do assassinato do cineasta Theo Van Gogh, em represália a um filme crítico da religião muçulmana, principalmente os fundamentalistas. Ayaab Hirsi Ali foi co-diretora do filme Submissão e, por isso, assim como aconteceu com Salman Rushdie, corre o risco de ser assassinada em nome de uma fátua ditada pelo fanatismo religioso.

A africana que fugiu da casa dos pais, na juventude, para escapar a um casamento forçado, permitido pela religião muçulmana, tinha sido excisada aos cinco anos, prática ainda existente em alguns países muçulmanos africanos e que consiste em se cortar os lábios da vagina e o clítoris a fim de preservar as mulheres da tentação dos prazeres da carne.

Dotada de um extraordinária coragem e energia, chegou bastante jovem na Holanda, como refugiada, mentiu aos holandeses para não ser expulsa, conseguiu completar estudos universitários e se tornar deputada na terra dos moínhos.

Perdeu o mandato e precisou se exilar nos EUA, sob pressão de uma ministra da Justiça que ouviu, num programa de televisão, sua confissão de ter mentido para obter o estatuto de refugiada.

A presença de Ayaan Hirsi Ali, em Paris, na semana passada, onde conta com o apoio de intelectuais, como o filósofo Bernard Henri Levy, tinha por objetivo pleitear a nacionalidade francesa e obter proteçao policial para escapar à fátua ou condenação à morte por heresia pelos fundamentalistas muçulmanos.

Essa presença da Voltaire negra na capital francesa quase coincidiu com a declaração do Arcebispo de Canterbury em favor de uma adaptação pelos ingleses da Charia ou Sharia, uma espécie de código penal muçulmano, em vigor nos países teocráticos islamitas e que condena ladrões à amputação das mãos e as mulheres acusadas de adultério a serem mortas a pedradas na praça pública.

Talvez o Arcebispo anglicano não soubesse que, há uns três anos, em Genebra, o neto do criador do movimento Irmãos Muçulmanos, no Egito, Sani Ramadan, foi destituído do seu posto de professor secundário por ter justificado num artigo publicado no jornal francês Le Monde, o apedrejamento das mulhres adúlteras e outras medidas da Sharia.

Numa entrevista a uma rádio francesa, Ayaan Hirsi Ali foi perguntada sobre a proposta do Arcebispo e considerou absurdo se colocar o obscurantismo no mesmo plano da lei e da liberdade.

A situação das mulheres em muitos países só poderia piorar, no caso de se transplantar a Sharia para Inglaterra ou para a União Européia. Forçadas ao casamento, forçadas à obediência ao marido, as mulheres submetidas à Sharia não têm o direito de dispor de sua vida. Ao contrário, podem ser espancadas pelo marido e têm poucas chances de se divorciar, enquanto ao marido é fácil obter um divórcio.. As mulheres acabam aceitando sua submissão. A proposta do Arcebispo constitui um pesadelo para as mulheres que obtiveram no Ocidente o respeito aos seus direitos e mesmo uma igualdade com os homens. Seria um retrocesso”.

Ayaan critica o que chama de irresponsabilidade dos democratas europeus que ignoram as violências cometidas contra as mulheres pelos fundamentalistas, em nome de uma tolerâ

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