EDITORIAL
Um show de cinismo! Foi isso que alguns maranhensesassistiram, no último dia de 13 de junho, por volta das 19 horas, quando ojornal da TV Mirante (ligada à rede Globo) informou que, naquele dia, "vândalosentraram na sede regional da Comissão Pastoral da Terra (CPT), reviraram equebraram tudo”. A matéria reconheceu o fato de haver membros da coordenaçãolocal da CPT ameaçados, mas, deixou no ar a possibilidade de ter sido umassalto. Uma rápida fala do Padre Clemir também foi veiculada. E ponto final.
A matéria confundiu muito mais do que explicou. Ela serviu,principalmente, para os donos da emissora (grupo Sarney) tentar passar para aopinião pública que não têm nenhuma relação com os tais "vândalos”, quando, naverdade, estes são os eternos capangas de latifundiários, protegidos pelo mesmogrupo Sarney, os cínicos donos da mesma TV Mirante.
Estamos falando de um fato dramático. No ano de 2011, empleno século XXI, a sede da Comissão Pastoral da Terra (CPT), no Maranhão,localizada no centro da capital, em São Luís, foi invadida durante a madrugadado dia 13 de junho. E esta invasão é resultado do clima de violência e de totalimpunidade vivido num Estado onde a oligarquia/máfia de José Sarney, opresidente do Senado Federal, continua mandando -e promovendo desmandos- noINCRA, no Tribunal de Justiça e no Governo do Estado.
A notícia realmente importante é que a CPT, ao lado delavradores quilombolas ameaçados de morte, esteve participando da coordenaçãode um acampamento feito na Praça Pedro II, em frente à sede do Tribunal deJustiça e do Palácio dos Leões, indo em seguida para a sede do INCRA, no bairrodo Anil. O acampamento durou entre os dias 1º e 10 de junho e denunciou aviolência e a impunidade, colocando o governo Roseana e o grupo Sarney entre osprincipais responsáveis por este problema do Maranhão.
O que não pode ser escondido é o fato de dois padres da CPTe 19 lavradores ameaçados, terem feito greve de fome, durante o acampamento doINCRA, para chamar a atenção para o problema da impunidade e da violência noMaranhão. A greve foi suspensa junto com o acampamento no dia 10 de junho e,nas primeiras horas do dia 13, a sede da CPT foi invadida.
É fundamental registrar -junto com a notícia da invasão dasede da Pastoral- que estes lavradores e os dois padres só suspenderam a grevee desocuparam a sede do INCRA, quando uma Ministra de Estado assumiu ocompromisso de vir ao Maranhão para ouvi-los. E neste caso, tem que ser ditoque, apesar do governo Dilma andar de braços dados com a máfia maranhense,apenas uma autoridade federal poderia resolver o impasse.
Para os acampados, os representantes do Governo Roseana nãovalem um Cibazol. Prova disso é que quatro secretários de estado assinaram umdocumento endereçado a eles e a proposta foi recebida com indignação,considerada ridícula, com ninguém levando a sério o documento assinado porConceição Andrade (Secretária de Desenvolvimento Agrário), Claudett de JesusRibeiro (Secretária de Igualdade Racial), Luiza de Fátima Amorim Oliveira (Secretáriade Direitos Humanos) e Aluízio Guimarães Mendes Filho (Secretário deSegurança).
A oligarquia/máfia tem o poder para segurar e manipularprocessos em diferentes tribunais, indicar ministro de Estado e eleger seusapadrinhados na base do abuso de poder político e econômico. Porém, vem delonge o fato de todo este poder ser colocado contra a população do Maranhão,especialmente, contra os mais pobres, caso de trabalhadores rurais(lavradores), ameaçados há décadas pelo avanço do latifúndio, da grilagem deterras e da violência no campo. As organizações populares pagam um preço altopor ficar ao lado das vítimas dessa estrutura de poder.
Hoje, a grande imprensa, controlada pela oligarquia-máfia,só fala em desenvolvimento e em grandes projetos. Sobre a violência no campo eseus verdadeiros responsáveis, o assunto é tratado, por esse mesmo sistema decomunicação, como se o problema fosse na lua.
Nos últimos anos, após a volta de Roseana ao governo,aumentou no Maranhão o número de assassinatos no campo. O Poder Executivo (como auxílio de figurinhas carimbadas do Judiciário) acoberta os mandantes dessescrimes. Os casos ocorridos recentemente em Açailândia e São Vicente Férrer(noticiados em edições anteriores deste jornal) são escandalosos e estão aí paraprovar o que estamos afirmando.
O Maranhão sobrevive sob o manto da impunidade. O poderinstitucional do Estado está a serviço do crime organizado. No caso da terra,as instituições defendem os interesses dos grandes grileiros. Com isso, olatifúndio se esparrama e o clima de barbárie se instala em várias regiões.Isso já foi dito outras vezes neste jornal. E será repetido, sempre que fornecessário.
Em 2009, tocaram fogo em uma associação de lavradoresquilombolas da Baixada e o governo de Roseana não apurou as responsabilidades.Em 2010, mataram o presidente dessa mesma associação (Flaviano Pinto Neto) e,até hoje, os mandantes estão soltos. Outra liderança da comunidade do Charco,conhecido como Manoel do Charco, vive sob a proteção da Força Nacional. Eagora, em 2011, a residência do vice-presidente da mesma associação, AlmirandirPereira, foi alvejada com 3 tiros. Por último, invadiram a sede da ComissãoPastoral da Terra, localizada em plena Rua do Sol, no centro de São Luís.
E a TV Mirante diz que a Policia vai investigar. É mesmo? ERoseana? Quer que investigue? E Sarney? E João Alberto? Estão todospreocupadíssimos com o caso de "vandalismo”? É o cúmulo do cinismo!
O caso da CPT merecia (no mínimo!!!) uma entrevista com osecretário de segurança do Estado. Quanto à secretaria de Direitos Humanos essanão adiantaria ouvir, afinal, ela efetivamente não existe, só servindo paradistribuir umas "medalhas" no final do ano.
Encerramos lembrando que, em julho de 1969, José Sarneyassinou a Lei de Terras do Maranhão e abriu as portas do estado para os grandesgrileiros, tumultuando o processo de regularização fundiária e provocando êxodorural e violência no campo. Em 2011, a oligarquia-máfia criada por ele (comRoseana no papel de porta estandarte) fala em desenvolvimento e de grandesprojetos, mas, na verdade, permite que os ladrões de terras (travestidos deempresários e pecuaristas) atuem como se estivessem no século XIX.
Mas, havia uma vantagem naquele tempo. Pois, no século XIX,os coronéis, chefes dos pistoleiros, não tinham uma emissora de TV paraconfundir a opinião pública e acobertar, cinicamente, os verdadeiros culpadospela violência e pela impunidade.