Rio de Janeiro, 20 de Setembro de 2026

<i>A Verdade Nua e Crua</i> tenta fazer humor com machismo

Quinta, 17 de Setembro de 2009 às 10:57, por: CdB

Comédias românticas parecem existir desde quando o mundo é mundo, por isso andam tão desgastadas e previsíveis. A Verdade Nua e Crua, que estreia em todo o Brasil nesta sexta-feira, pode não ser o fundo do poço, mas é mais um prego colocado no caixão do gênero que parece dar seus últimos suspiros.

Estão longe os tempos em que comédia romântica combinava charme com sagacidade. As décadas de 1930 e 1940, com filmes como Levada da Breca e Jejum de Amor, apontavam um futuro feliz para o gênero que, nos anos de 1980 e 1990, ainda parecia saudável. Hollywood fazia filmes como Harry e Sally - Feitos um Para o Outro.

A primeira década do século 21 se aproxima do fim e o que o cinema tem a oferecer, combinando humor e romance, atende por nomes como A Proposta, Vestida Para Casar e A Verdade Nua e Crua.

Todos são uma espécie de plágio requentado da fórmula de sempre. Os personagens são Ela e Ele. Muito diferentes, brigam feito cão e gato no primeiro ato do filme. Depois de uma trégua, percebem que podem ficar bem juntos. No final, um dos dois acaba voltando para o (a) ex, mas percebe que o grande amor de sua vida é aquela pessoa cujo nome vem junto do dela nos créditos do filme.

Em A Verdade Nua e Crua, Ela é interpretada por Katherine Heigl (forte candidata ao posto da atual rainha das comédias românticas) e atende pelo nome de Abby. Produtora de televisão, trabalha demais e não tem nem tempo para encontrar um novo namorado. Essa função cabe à sua assistente (Bree Turner) que não apenas arma os encontros como dá dicas de como ela deve se comportar.

Ele é interpretado pelo escocês Gerard Butler (300), um sujeito boca suja e misógino que ganha a vida dando conselhos num programa de televisão de madrugada. Claro que a vida dos dois personagens vai se cruzar e eles vão brigar muito para depois perceberem que o filme será muito previsível.

Ele é contratado para trabalhar no programa que ela produz -- um talkshow apresentado por um casal cinquentão, que dá conselhos sentimentais, culinários ou o que mais for preciso para subir a audiência.

Mike -- esse é o nome do sujeito -- bate de frente com Abby e logo é capaz de desvendá-la: solteira, sexualmente frustrada e a espera de um príncipe encantado, que existe e mora na casa ao lado. O acordo entre os dois inimigos é simples: Mike ajuda Abby a conquistar o rapaz e ela, em troca, o ajuda no programa de televisão, porque juntos podem elevar a audiência à estratosfera.

Curioso como, para Hollywood, uma mulher jamais é considerada bem sucedida se não tiver um homem ao seu lado. A satisfação profissional de nada vale se não existir um príncipe em sua cama para chamar de seu, mesmo que para isso ela precise adotar um comportamento grosseiro, vulgar e machista -- afinal, quem tem o poder é o homem. 

E é assim que Abby começa a agir para conquistar seu vizinho: fazendo tudo igual a Mike, desde o vocabulário até nas atitudes.

Roteirizado por três mulheres e dirigido por Robert Luketic, "A Verdade Nua e Crua" não chega a ser ofensivo, é apenas um filme que tenta fazer humor de fórmulas batidas combinadas com uma visão de mundo bastante machista.

Harry e Sally, por exemplo, é plagiado numa cena num restaurante quando Abby usa uma calcinha com vibrador acoplado e o controle-remoto cai nas mãos de uma criança. A reação da personagem a cada choque recebido pretende remeter à já clássica simulação de orgasmo de Meg Ryan, também num restaurante, no filme da década de 1980.

Mas o esforço de Katherine Heigl é vão. Nem tanto por culpa dela, mas por conta do próprio filme, no qual nem a baixaria consegue ser engraçada.

Se é para ser vulgar, que seja como Se Beber Não Case ou os filmes de Jude Apatow (Ligeiramente Grávidos, O Virgem de 40 Anos), que pelo menos extraem humor da baixaria, sem a pretensão de serem levados à sério. Não que A Verdade Nua e Crua tente se levar a sério, mas também não diverte -- apenas constrange.

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