Rio de Janeiro, 10 de Setembro de 2026

A Venezuela, 40 anos depois do golpe no Brasil

Cabe aos que seguem lutando pela democracia e pela justiça social impedir que se repita na Venezuela a violência contra a democracia de que fomos vítimas e que hoje ameaça vitimar o povo venezuelano. (Leia Mais)

Terça, 02 de Março de 2004 às 05:45, por: CdB

Quarenta anos depois do que levou ao golpe de 1964 no Brasil, outro processo de desestabilização está em pleno desenvolvimento aqui perto, na Venezuela. O grande empresariado nacional, o governo norte-americano, a grande mídia, as agências de notícias internacionais, mobilizando setores fascistas da classe média, protagonizam, da mesma forma que aqui, há quatro décadas, uma tentativa de desestabilização de um governo que coloca em prática um projeto de transformações sociais e políticas a favor da grande maioria - pobre, lá como cá - da população.

Não bastou o golpe de Estado promovido e protagonizado pela grande mídia há dois anos - em um dos casos mais escandalosos de manipulação da história da mídia mundial -, para que ficasse claro o caráter golpista e repressivo dos que resistem ao processo de reformas. Sabemos hoje, por pesquisas publicadas quase quatro décadas depois, que o governo de João Goulart dispunha de grande apoio popular. Não precisamos esperar muito para saber que a manifestação de apoio a Hugo Chávez, segundo as próprias agencias internacionais tiveram que reconhecer, teve o dobro de participantes do que aquela da oposição.

A imprensa diária brasileira se comporta de forma similar àquela que teve há 40 anos. Na competição para ver quem dá a pior cobertura da Venezuela, dá empate, coluna do meio: todos são igualmente péssimos, junto com revistas semanais tradicionais.

Quem quiser saber o que acontece na Venezuela, tem que apelar para a mídia alternativa, de Carta Capital a Agência Carta Maior, de Caros Amigos a Reportagem, passando por Brasil de Fato e Correio do Brasil. E agora pode dispor da melhor leitura para compreender por que, de repente, aquele que parecia ser um paraíso petrolífero explode e dá nascimento a um movimento social e político inédito, protagonizado pelos pobres - até aqui totalmente ausentes de um dos países que, junto com o Brasil, concentra a maior proporção de miséria no continente - o livro de Gilberto Maringoni: "A Venezuela que se Inventa", da Editora da Fundação Perseu Abramo.

O conflito atual, que parece de resolução difícil, para que possa ser aceito pelas duas partes, na realidade tem um encaminhamento correto, dado pelo Conselho Nacional Eleitoral: como existem evidências de que mais de um milhão de assinaturas apresentadas pela oposição estão fora do critério estabelecido pela Constituição, haverá várias dias, no final do mês de março, para que os questionados se apresentem e confirmem ou não sua adesão ao pedido da oposição. Nada mais democrático. No entanto, a alternativa é desconsiderada pela oposição e pela grande mídia brasileira, até porque convêm ao plano internacional de desestabilização desconsiderá-la e tratar de fazer recair sobre o governo e sobre o CNE a inviabilização da solicitação e não sobre a oposição. Não é nenhum casuísmo - ainda mais depois que a oposição fraudou um golpe militar, através da mídia - pedir que os que teriam assinado a petição, se apresentem para confirmá-la, em um prazo perfeitamente razoável.

Mas seria pedir muito a uma oposição golpista, a uma política externa como a do governo Bush e a uma grande mídia cujos interesses corporativos a fazem reproduzir as mentiras cotidianas dos oligopólios venezuelanos. Cabe aos democratas, aos que resistiram ao golpe de quatro décadas no Brasil, que seguiram resistindo e que hoje seguem lutando pela democracia e pela justiça social, impedir que se repita na Venezuela a violência contra a democracia de que fomos vítimas e que hoje ameaça vitimar o povo venezuelano.

Emir Sader, professor da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), é coordenador do Laboratório de Políticas Públicas da Uerj e autor, entre outros, de "A vingança da História

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