Rio de Janeiro, 13 de Setembro de 2026

A velha ultraviolência em doses bem humoradas

Quarta, 05 de Janeiro de 2005 às 08:12, por: CdB

A primeira grande estréia nacional de 2005 é, com certeza, Meu tio matou um cara, terceiro longa-metragem do cineasta gaúcho Jorge Furtado. No elenco, grandes nomes do audiovisual: Dira Paes, Lázaro Ramos, Deborah Secco, Darlan Cunha e o ótimo Aílton Graça.
 
Em setembro, quando Plano Cultural entrevistou Furtado enquanto ele ainda finalizava seu filme, o diretor falou pouco sobre o trabalho. Disse apenas que se tratava de um filme que não era tipicamente gaúcho (diferente de O homem que copiava e Houve uma vez dois verões - no primeiro exemplo ele até colocou um elenco carioca falando com sotaque gaúcho). Ou seja, "...no Meu tio eu não fiz isso, porque ele é todo filmado em Porto Alegre, mas ele não se passa necessariamente em Porto Alegre. Não é como em O homem que copiava que mostra pontos da cidade. Ele é um filme urbano, se passa numa cidade, a gente se preocupou em fazer com que não ficasse muito explícito que cidade é essa. É uma grande cidade brasileira. Podia ser São Paulo, Belo Horizonte, Curitiba, qualquer uma".
 
Essa diversidade regional é acentuada em vários aspectos em Meu tio matou um cara. A família de Duca, personagem vivido pelo carioca Darlan Cunha, é formado pelo tio Lázaro Ramos (baiano), a mãe Dira Paes (paraense) e o pai Aílton Graça (paulista). A diversidade também se dá na escola: a menina pela qual Duca é apaixonado, Isa (Sophia Reis), é gaúcha, com sotaque bastante marcante. Essa "grande cidade brasileira" pode ser um mosaico dessa heterogênea nação. Ainda que a diferença social, tão acentuada entre as diversas regiões do país, inclusive em centros urbanos, tenha sido posta de lado.
 
E se a diferença social inexiste no enredo do longa, a violência, algo tão em voga nos dias de hoje, ganha uma boa reflexão na fita. Primeiro basta uma rápida pensada no título. "Meu tio matou um cara" é uma fala do personagem Duca, que se repete algumas vezes no filme (às vezes mudando de ordem "O tio do Duca matou um cara"). É dito de forma espontânea, natural, até mesmo habitual. A morte, o crime, é algo supérfluo entre os jovens. E isso é facilmente explicável: o videogame jogado por Duca é sobre crime (algo em torno de uma versão cibernética do jogo Detetive); a linguagem de parte da imprensa que repercute o crime-título é bastante sugestiva, dando uma descrição chula, meio espetáculo, do assassinato; a própria visão dos garotos em relação ao crime - se envolvem e "solucionam o caso" - é algo bastante curioso (Duca chega a dar dicas aos pais e ao advogado em como lidar com a situação). É como se o crime em si fosse um jogo. E isso acaba abrindo o leque de Meu tio matou um cara, o tornando um filme infanto-juvenil bastante inteligente.  
 
Essa banalização da violência vista por uma ótima jovem é um charme à parte, que deve se somar à sofisticada estética de Furtado [uso de offs com imagens que constroem outros comentários, como na explicação da saída de Éder (Lázaro Ramos) da casa de Duca após o assassinato]. A montagem é bastante própria à narrativa de Furtado. O montador, Giba Assis Brasil, é o mesmo de O homem que copiava, onde ambos (ele e furtado) estavam ainda mais inspirados. As atuações dos jovens atores não são boas, com exceção de Darlan Cunha, que compõe muito bem seu personagem de forma contida, bastante introspectiva.

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