Rio de Janeiro, 05 de Outubro de 2026

A universidade e o complexo celulose-papel

Quarta, 27 de Julho de 2011 às 11:33, por: CdB

Noperíodo de 30 de junho a 2 de julho de 2011, no auditório da UFMS/Campus deTrês Lagoas/MS, estiveram reunidos professores, estudantes, autoridadespúblicas, agentes sociais e de pastoral e demais trabalhadores e trabalhadorasda cidade e do campo para a realização do "I SIMPÓSIO SOBRE A FORMAÇÃO DO COMPLEXO CELULOSE-PAPEL EM MATO GROSSO DO SUL:LIMITES E PERSPECTIVAS”. O referidoEvento se constitui de uma iniciativa da Universidade Federal de Mato Grosso doSul/UFMS, Universidade Federal da Grande Dourados/UFGD e Universidade Estadualde Mato Grosso do Sul/UEMS, e contou com apoio financeiro da FUNDECT/MS.

O objetivo primordial foi a abertura, dentro da Universidade,de um espaço público de debate acerca da formação do complexo celulose-papel, dentroda premissa da indissociabilidade do ensino, da pesquisa e da extensão. E,mais, da necessidade da Universidade pública cumprir sua função social, queimplica o compromisso com a sociedade, entendendo que a melhor forma de cumpri-loé exercer o questionamento com amplos setores e sujeitos nela inseridos.

Reforçamos, deste modo, a linha política do evento que é amesma da Universidade pública, gratuita e de qualidade, qual seja servir aointeresse público, diagnosticando demandas na sociedade e buscando alternativas.O formato deste primeiro Simpósio traduziu essa preocupação ao dar espaço paraas instituições públicas e organizações sociais e religiosas exporem suasideias a fim de que as demandas da formação do complexo celulose-papel cheguem àUniversidade para orientar temas de pesquisa.

Partesignificativa do debate foi marcada pela interação com estudiosos dos impactosdo complexo celulose-papel que aceitaram dividir suas experiências. Deste modo,foram apresentados resultados de pesquisas realizadas nos estados do Rio Grandedo Sul, Espírito Santo, Bahia e São Paulo. Para estes estudiosos, astransformações que se realizam no ambiente são muito preocupantes devido àredução da biodiversidade, bem como a contaminação dos recursos hídricos,somando-se ainda ao impacto sobre o modo de vida dos pobres da terra,principalmente das comunidades tradicionais e bairros rurais que vêem seu mundosendo desagregado pelo peso do complexo celulose-papel. Isto se deve a diversosfatores como o plantio de árvores de uma única espécie exótica ocupando áreasque deveriam ser preservadas, como topos de morros e margens de rios enascentes, também ao uso intensivo de herbicidas, inseticidas e adubos químicosprovocando a contaminação de nascentes e envenenando animais e peixes, em clarodesrespeito à legislação ambiental –- como demonstrado pelo palestrante daDefensoria Pública do Estado de São Paulo.

Todavia,evidenciou-se também a necessidade de acesso a informações in loco para que pesquisas possam ser realizadas a fim dediagnosticar impactos, uma vez que o bioma cerrado é diferente dos biomas doRio Grande do Sul, São Paulo, Espírito Santo e Bahia, onde já existem pesquisasem áreas de eucaliptais, mas cujos resultados não podem ser transportadas paraa região sul-mato-grossense. Um dos aspectos importantes a ser considerado naspesquisas em Mato Grossodo Sul, sobre o comportamento do eucalipto, diz respeito à existência de umclima com duas estações bem distintas: período de chuva e o período de escassezhídrica.

Mesmocom carência de pesquisas de base, já temos dados preocupantes em relação aoestado de Mato Grosso do Sul, tais como: agravamento da concentração fundiária,redução da produção de alimentos, desagregação de comunidades no entorno a áreade expansão do complexo e indícios de impactos sobre as nascentes nas áreas deplantio de eucalipto da década de 1980.

Outraparte dos debates foi marcada por preocupações voltadas para o questionamentodo modelo econômico exógeno implantando na região. O crescente investimento doEstado e dos setores da economia local no ciclo do eucalipto –como sendo asolução econômica da região Leste do MS–, pode tornar esta área vulnerável acrises, uma vez que esta opção como caminho único deixa pouco espaço paraprojetos alternativos que possam funcionar como amortecedores, principalmentepara aqueles mais vulneráveis socialmente, num cenário de retração capitalistaglobal que afete o mercado de celulose. Dito de outra maneira, a repetiçãodeste modelo econômico altamente dependente do mercado externo e alicerçado nacelulose, uma mercadoria voltada de forma majoritária para fins de consumo nãoessenciais à reprodução da vida e para a exportação, pode representar ocomprometimento de amplos setores da economia envolvidos em arrendamentos,comércio, empregos.

Conclui-seque a expansão capitalista do complexo celulose-papel no cerrado sul-mato-grossense,sob auspícios do Estado, gera controvérsias tanto em termos sociais comoambientais, uma vez que impactos já aparecem na leitura dos povos que vivemnestas áreas, apesar do monocultivo de árvores representar pouco mais de 1% daárea total do MS. Percepção do senso comum que deve ser considerada comoindicador da necessária posição de alerta, tanto do Estado como dospesquisadores, no sentido de aprofundar a fiscalização e o estudo destas áreas,principalmente porque esses impactos já foram registrados em outros Estados queviveram o ciclo do eucalipto.

Enfim, mesmo considerando as diferençasexistentes em relação aos cuidados ambientais desde as décadas de 80-90 atéhoje, reiteramos que o Simpósio alertou para a necessidade de um esforçoconjunto das empresas, das esferas locais e regionais do poder público, depesquisadores e da sociedade em geral no sentido de garantir as condições paraa manutenção dos valiosos recursos do Cerrado para as atuais e futuras geraçõesde forma queos fins econômicos não sejam justificadores dos meios empregados em nome dodesenvolvimento.

[Fonte:CPT/MS]

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