Rio de Janeiro, 31 de Outubro de 2026

A última do Greenpeace - Reflexões sobre equívocos da nossa agenda ambientalista

Por Bernardo Kucinski: Fiquei imaginando se o Greenpeace confeccionaria o mesmo “informe publicitário” substituindo o retrato de Lula pelo de Marina Silva, a ministra diretamente responsável pelas questões ambientais. Não, a Marina não, ela é do bem...

Sábado, 01 de Dezembro de 2007 às 08:21, por: CdB

O espantoso "informe publicitário" ocupou a página inteira do Estadão (1). No topo, uma foto do presidente de ponta a ponta, cabisbaixo, escolhida a dedo para humilhar, no melhor estilo Folha de S. Paulo, onde, aliás foi comprada (ou foi cedida?). Em baixo, em corte horizontal um cenário de floresta incendiada. Sobre a fumaça, a admoestação: Presidente Lula: o problema das mudanças climáticas está bem embaixo do seu nariz.

No pé da página um longo parágrafo começa com “O Brasil é o quarto maior emissor de gas carbônico na atmosfera... acelerando o aquecimento global..” E repete pacientemente o pito: “A explicação, presidente, está bem debaixo do seu nariz e na frente dos nossos olhos: o desmatamento da Amazônia.....etc e tal, e assim vai. Assinado: Greenpeace.

Quanto será que custou esse anúncio de página inteira no jornal mais caro do país? De onde veio o dinheiro? Certamente de doações, filiados do Greenpeace, ambientalistas desprendidos e apoiadores da boa causa. Enfim: dinheiro do público. Essa gente toda foi consultada sobre a relação custo-benefício desse anúncio? Ou sobre seus termos, sua linguagem? Se não foi, está errado. Se foi está mais errado ainda, porque o “informe publicitário” dessa ONG internacional, que não deveria se meter em política partidária, explora a cultura do preconceito anti-lulista, criada e adubada pelos tucanos. O presidente é um ignorante, não percebe um problema que está “bem embaixo do seu nariz” . É preciso que o Greenpeace "explique".

O informe publicitário personaliza a crítica, num ataque direto à figura do presidente, outra característica do discurso tucano. Fiquei imaginando se o Greenpeace confeccionaria o mesmo “informe publicitário” substituindo o retrato de Lula pelo de Marina Silva, a ministra diretamente responsável pelas questões ambientais. Não, a Marina não, ela é do bem...

A linguagem da propaganda não admite nuances, contradições. Por isso, o Greenpeace passa por cima das medidas que o governo já tomou para defender o meio ambiente, ou das novas medidas em discussão. Não discute se são boas, suficientes, se não são. Não considera se o desmatamento da Amazônia está diminuindo no governo Lula ou não. De fato, está diminuindo, mas esse “detalhe” complicaria o “informe publicitário”.

Não é uma peça didática, analítica, que procura conscientizar, como se esperaria de uma ONG ambientalista . Não discute. É uma peça de ataque político . É um informe de natureza metafísica, que por isso precisa ignorar a realidade das políticas do governo em relação à Amazônia. Mais que isso, o pressuposto do discurso do “está bem embaixo do seu nariz”, é o de que não há política nenhuma. Uma mentira.

Como toda peça de propaganda, esse “informe publicitário” foi concebido para desinformar, não para informar. Por isso, as falácias do informe sucedem-se, dentro da lógica inexorável da linguagem enganosa de toda propaganda. A primeira frase é a primeira falácia: “O Brasil é o quarto maior emissor de gás carbônico na atmosfera acelerando o aquecimento global...”

Não é o quarto maior, é o sexto maior (2) e nem poderia estar acelerando o aquecimento global, porque suas emissões de 1,14 bilhões de toneladas de CO2 equivalente por ano, correspondem a apenas 6% das 19,31 bilhões de toneladas emitidas pelos cinco grandes. Mesmo que o Brasil corte toda sua emissão, se nada for feito pelos Estados Unidos e China, ao aquecimento continuará se acelerando.

A relação entre efeito estufa e Floresta Amazônica é bem mais complexa: graças à sua imensidão, a floresta amazônica praticamente captura de volta todo o CO2 que o Brasil emite, inclusive o CO2 de suas próprias queimadas, que constituem a maior parte do que emitimos. É o que mostram os últimos estudos do maior projeto de pesquisa ambiental da Amazônia, revelados pelo caderno especial Amazônia, publicado pelo Estadão (3). Ou seja, o Brasil não pode t

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