Por Rui Martins - A Suíça poderá perder a atual prosperidade em consequência do voto contra imigrantes, no plesbiscito do começo de fevereiro. A votação popular dos suíços, aprovando por voto direto pela maioria de apenas 0,3%, 19 526 votos, a iniciativa proposta pelo Partido do Povo contra a circulação de pessoas e desafiando a União Européia, reedita o choque de 6 de dezembro de 1992, quando os suíços negaram a adesão ao Espaço Econômico Europeu.
Cartaz pedindo para o povo votar contra os imigrantes.A Suíça poderá perder a atual prosperidade em consequência do voto contra imigrantes, no plesbiscito do começo de fevereiro.
A votação popular dos suíços, aprovando por voto direto pela maioria de apenas 0,3%, 19 526 votos, a iniciativa proposta pelo Partido do Povo contra a circulação de pessoas e desafiando a União Européia, reedita o choque de 6 de dezembro de 1992, quando os suíços negaram a adesão ao Espaço Econômico Europeu.
Nesses dois episódios, o governo alertou o povo contra as consequências danosas para a economia suíça do partido liderado pelo industrial nacional-populista Christophe Blocher, anti-europeu e anti-imigração, de tendência de extrema-direita, cujas cartazes sempre assimilam estrangeiros a bandidos e traficantes.
Tanto em 1992 como agora, a Suíça mostrou estar dividida entre suíços-franceses e suíços-alemães que, além de falarem idiomas diferentes, mostram comportamentos culturais e políticos opostos. Entre essas duas populações existe a chamada barreira do « roesti »,como se chama o prato típico dos suíços-alemânicos.
Na votação de domingo, todos os cantões romandes ou suíços-franceses, votaram contra a iniciativa do Partido do Povo, embora sejam os com maior presença de imigrantes. A rejeição à UE e a intolerância aos imigrantes é própria da Suíça-alemã, onde o eleitorado de dezessete cantões agrícolas conservadores, nos quais existem poucos imigrantes, fez a diferença. Apenas três cantões alemânicos Zurique, Basel e Zug seguiram os suíços-franceses. O cantão da Suíça-italiana votou com os alemânicos contra a livre circulação de imigrantes.
A principal consequência do voto de 1992 foi a falência da Swissair. Uma tentativa posterior de adesão à União Européia, rejeitada pelos suíços, foi contornada pela celebração de um acordo bilateral com a UE. Diversos representantes europeus criticavam a maneira pela qual a Suíça conseguira ter todas as vantagens de uma parceria da UE sem as responsabilidades dos membros efetivos.
Os recentes escândalos de evasão fiscal dos países europeus para os bancos suíços, já punidos pela mesma razão pelos EUA, enfraqueceram a Suíça e, por isso, o governo suíço temia os resultados da iniciativa do Partido do Povo « contra a imigração maciça » e impedindo a circulação de cidadãos da UE dentro da Suíça e restabelecendo o regime de cotas de estrangeiros.
Isso porque no acordo bilateral com a UE existe a chamada cláusula guilhotina, pela qual bastará a quebra de um dos diversos acordos celebrados para serem anulados todos os outros. Vista a importância das transações comerciais da Suíça com a UE, isso poderá ser catastrófico.
Suíça isolada por barreiras comerciais
Ainda é prematuro afirmar quais os setores atingidos por esse voto bumerangue, pelo qual os perdedores serão os próprios suíços por romperem uma posição privilegiada dentro da União Européia. Mas a comissária da Justiça da UE já deu uma idéia - « Os suíços se confrontam com a União Européia e as empresas helvéticas poderão ter barreiras erguidas ao acesso ao mercado único europeu. »
De imediato, as consequências visíveis atingirão os suíços do estrangeiro, que se verão amputados em termos profissionais das vantagens decorrentes da paridade com os cidadãos da UE. Serão também afetados os programas de pesquisas, os programas de formação, o reconhecimento de diplomas e programas de apoio às atividades culturais como o cinema, celebrados recentemente com a União Européia.
De acordo com o presidente da Usam, que congrega as médias e pequenas empresas suíças, a aceitação da iniciativa contra a circulação de pessoas terá um impacto mais importante nas empresas suíças cujas exportações para a UE superam a metade do volume total de seus negócios. De uma maneira geral, os empresários suíços grande utilizadores da mão-de-obra imigrante, consideram incertas ainda as consequências da votação de domingo, porém acham que o povo, insuflado pelo Partido do Povo brincou com o fogo, no dizer de Hans Hess, presidente da Associação suíça de equipamentos, máquinas e metais, que teme igualmente uma burocratização e centralização na concessão de autorizações de trabalho para os estrangeiros.
De acordo com economistas do Credit Suisse, uma primeira reação será o corte de 80 mil autorizações de trabalho. As empresas estrangeiras irão certamente retardar maiores investimentos, na espera de como poderão criar novos postos de trabalho.
Os setores que mais sofrerão com a limitação de estrangeiros são os de enfermagem, assistência a idosos, o da hotelaria e o da construção, onde é novamente grande o número de portugueses.
Rui Martins, correspondente em Genebra
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