Rio de Janeiro, 05 de Setembro de 2026

A simplicidade surpreende

Por Flavio Vitari - Essa semana vou relatar uma experiência gastronômica que foi muito gratificante. Confesso que, por lidar com a gastronomia todos os dias, um convite para jantar muitas vezes é para mim enfadonho. Na verdade o que menos importa nessas horas é o jantar, vale muitos mais a companhia e o bom papo com os amigos.

Sexta, 06 de Agosto de 2010 às 05:01, por: CdB
Essa semana vou relatar uma experiência gastronômica que foi muito gratificante. Confesso que, por lidar com a gastronomia todos os dias, um convite para jantar muitas vezes é para mim enfadonho. Na verdade o que menos importa nessas horas é o jantar, vale muitos mais a companhia e o bom papo com os amigos. Foi quando um grande amigo, Fernando, fez um convite para jantar em sua casa, justamente em um dos dias em que dou aula de prática na faculdade. Ou seja, relutei em muito, pois é só imaginar que saio tarde e depois de provar 2 receitas de 24 alunos. Perceberam a situação, não consigo ver comida. Como sempre vou fazer um porém. Quando era pequeno almoçava todos os domingos na casa de minha vó. Ela não tinha ninguém para ajudar. Fazia almoço, sobremesa, e ainda o lanche no fim da tarde antes de irmos embora. E assim era na casa de todo mundo. Isso mudou, hoje todos marcam jantares e encontros em restaurantes. È muito mais simples, menos trabalho. Essas são as justificativas que, aliás, têm a sua razão. Mas, acho que vemos retomar esse hábito muito salutar de recebermos em casa servindo algo que nós fizemos ou mesmo que comemos normalmente. Vamos retomar ao assunto pois isso é mera divagação. Então, como ia dizendo, apesar de muito relutar Fernando me conveceu, afinal o dia seguinte seria um sábado. Fernando foi logo avisando que iríamos tomar um bom vinho branco com um queijinho. E, assim, a noite se desenrolou na sua agradável varanda. Vale dizer que o clima em Salvador anda diferente - como o país ou o mundo todo , a imprensa diz - está fazendo um friozinho à noite. Entenda-se por frio 19 graus. E, assim, o tempo foi passando com um bom vinho, bate papo e muita risada. Já estava precisando de algo para comer, de preferência um caldo. Foi quando Fernando apareceu com um prato de servir risotto (fundo e com as bordas bem altas para manter o calor). O visual do prato era um molho de tomate e cebola e por cima dispostas duas sardinhas cozidas. O cheiro estava maravilhoso. Na primeira garfada no molho percebi que tinha algo por baixo. Era uma deliciosa broa de milho em pedaços. A sua doçura dava um contraste perfeito com a acidez do tomate e o gosto ativo da sardinha. Provei a sardinha, a carne se desprendia deixando a espinha soltinha - cozida à perfeição - e a mesma não estava envolvida no molho o que garantia, na garfada a percepção de todos os sabores independentes. Diante da minha surpresa e dos meu sinceros elogios, Fernando deu uma risada e disse que era uma receita tradicional camponesa de uma região de Portugal, Figueira da Foz, de preparo muito simples, que abaixo transcrevo. Realmente, foi um prato perfeito para o fim da noite. Receita do dia Caldeirada de sardinha da Figueira da Foz Ingredientes (01 porção): 02 sardinhas pequenas 1/2 cebola grande 250 gr de tomates maduros sem semente e pele 02 broa de milho taça de vinho branco azeite, sal, pimenta, salsa e folha de louro Preparo: 1. Tire as cabeças e as guelras das sardinhas e limpe-as. 2. Corte as cebolas e os tomates em rodelas finas e faça um refogado com o azeite e o louro. Acrescente o vinho e vá pingando água, se necessário, até se formar um caldo encorpado. 3. Com o molho pronto, 07 minutos antes de servir, coloque as sardinhas por cima desse refogado e abafe para ela cozer com o vapor do molho. 4. Esfarele grosseiramente a broa no fundo dos pratos, cubra totalmente com o molho de tomate e disponha as sardinhas por cima. Salpique a salsinha bem picada e um fio de azeite. Está pronto para servir. Garanto que, da mesma forma que me surpreendeu, irá, em razão da simplicidade do preparo e dos ingredientes, não só a ti como também aos seus convidados, surpreender. Detalhe importante. O fato de a sardinha não se misturar ao molho dá um grande equilíbrio no prato. Primeiro você sente todos os sabores dos ingredientes de forma independente em cada garfada. Depois dá um equilíbrio, pois a broa mais doce dá um contraponto à acidez do molho e o gosto forte da sardinha. E essa, por sua vez, mantém seus sabores de mar inteiramnete preservados. Façam e perceberão exatamente o que estou falando. Flavio Vitari é chef de cozinha e colunista do Correio do Brasil, sempre às sextas-feiras. Edita também a página www.flaviovitari.com.br
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