Rio de Janeiro, 12 de Maio de 2026

A segunda derrota da esquerda

Quinta, 25 de Agosto de 2005 às 09:54, por: CdB

"Estar no PT ou sair" deve ser analisado nesta perspectiva: em que medida contribui para unir ou para dividir ainda mais a esquerda brasileira? Sair do PT é uma meia resposta. E ela coloca uma outra questão: ir para onde? Como evitá-la, para poder retomar a iniciativa.

A primeira - e maior derrota da esquerda - é representada pelo governo Lula. Pelo que é e pelo que não é. É um governo que deu continuidade ao conteúdo das políticas herdadas - com algumas exceções, como a política externa, a de educação, a de cultura - e não tem representado um ponto de partida para a transformação do Brasil em um país justo e solidário. Ocupa o lugar de um governo de esquerda, é visto assim pelo povo, sem que represente um governo favorável às classes populares.

Reeleito ou não, a cara que teve até agora fará com que passe à história a versão de que o país comporta que um ex-líder operário, apoiado em um Partido dos Trabalhadores, tenha conseguido se eleger presidente da República. E tenha governado como os outros. Será uma derrota estratégica para a esquerda, que coloca o Brasil na mesma rota defensiva geral em que as viradas históricas das últimas décadas colocaram a esquerda em escala mundial.

Neste período, o socialismo e o anticapitalismo deixaram de ser uma alternativa contemporânea, o liberalismo triunfou econômica e ideologicamente, a hegemonia imperial se expandiu no mundo, a democracia ficou identificada com sua versão liberal, o movimento sindical e a esquerda nunca estiveram tão enfraquecidos e descaracterizados.

Surgem novas forças, sobretudo movimentos sociais, que demonstram capacidade de resistência às políticas neoliberais, mas como não podem substituir as forças políticas nem, sozinhos, criar alternativas políticas, não conseguem sair da posição defensiva estratégica a que a esquerda e o movimento popular foram postos.

Em um período caracterizado pela vitória do bloco capitalista, com sua roupagem neoliberal e imperial, sua capacidade para estabilizar-se se demonstra frágil, pela vulnerabilidade econômica que os próprios modelos neoliberais impõem - com papel protagonista do capital financeiro e sua incapacidade para gerar as condições de um projeto consensual - pelas dificuldades para materializar suas "guerras infinitas" e pelas resistências das lutas em várias partes do mundo - principalmente na América Latina.

orém, ao não surgir alternativas globais, vivemos um período de profunda instabilidade, em que o modelo hegemônico demonstra sinais fortes de esgotamento, mas sem que se vislumbre alternativas a ela no horizonte. É um momento em que o velho perece e o novo ainda não tem condições de se afirmar. Um período que pode se prolongar muito e cujo desenlace não necessariamente leva à morte do velho e à consolidação do novo, porque o velho pode se reciclar e o novo se frustrar, voltar a ser derrotado, antes mesmo de se afirmar.

No caso do Brasil, essa primeira derrota poderá se desdobrar em outra, que costuma acompanhá-la, pelas experiências históricas similares - a fragmentação da esquerda e do movimento popular. A multiplicação de uma miríade de pequenos grupos, diferenciados por visões ideológicas e políticas distintas, o centro do debate nas responsabilidades da derrota, a substituição dos debates sobre alternativas políticas pelos debates de cunho doutrinário.

Se a primeira derrota já levou ao isolamento da esquerda, à iniciativa recuperada pela direita, esta segunda pode consolidar o seu isolamento social, incapacitando-a para retomar um ciclo de mobilizações populares e voltar a construir uma alternativa própria para a crise brasileira. A fragmentação torna muito mais difícil retomar a iniciativa por parte da esquerda.

"Ficar ou sair do PT" é um destes dilemas que, colocado no centro do debate, ao invés de ser resposta à crise, só a multiplica. Pode se estar no PT ou fora, mantendo posição de esquerda - isto é, contra o modelo neoliberal. O funda

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