Os chefes de Estado brasileiros podem ser classificados em dois tipos, ou através de duas tendências, que podem aparecer combinadas. Há os desbravadores, que são minoria, e os administradores, que são legião. É claro que teremos pendor pelos desbravadores, mas as qualidades dos administradores não podem ser simplesmente desprezadas.
D. Pedro I foi um desbravador, e assim ficou na História: afinal foi ele que desembainhou a espada e deu o grito. Mas depois não conseguiu administrar as contradições do país que fundara, e ao seu "Dia do Fico" sucedeu-se o primeiro "Ame-o ou deixe-o" de nossa História, exigido por nossa nobre classe escravocrata e patrícia, e que levou o imperador de volta ao Portugal de origem. D. Pedro II foi o administrador de mais longa vida política no Brasil: esteve no poder durante 49 anos, embora mandasse de fato a partir de 1848, quando eclodiu e faliu a Revolução Praieira em Pernambuco.
Durante seu mandato, desbravou vários territórios: as artes, imprensa e ciências tiveram apoio que, ainda que tímido, fora desconhecido nos tempos coloniais. Tivemos nossa primeira política externa digna do nome, empregada sobretudo no Prata, graças ao Visconde de Uruguaiana. D. Pedro apoiou o telefone, quando ninguém acreditava no aparelho: graças a isso quem vai à sede da Bell Telephone nos Estados Unidos vê seu retrato na parede ao entrar no vestíbulo do edifício. Mas não importa: D. Pedro II, timorato quanto ao escravismo, ficará na história como um mero administrador de seu longo mandato. Já desbravadora será para sempre sua filha, Isabel, a Redentora, que numa penada assinou o que seu pai não teve coragem de decretar.
Já os presidentes da República Velha ficam no rol dos administradores empedernidos, combinando o atraso da sociedade brasileira com sua vocação exportadora. Vargas desbravou novos rumos, e pagou com a vida por isso depois. Mas vale lembrar aqui que nem sempre o perfil desbravador de um presidente deve-se apenas à sua personalidade. Quando assumiu a presidência, depois da Revolução de 1930, Vargas ganhou o apelido de "chuchu": não tinha gosto, e ia com qualquer coisa.
Mas tinha a seu dispor uma geração de desbravadores, até mesmo dos que iam contra ele: Oswaldo Aranha, Flores da Cunha, Batista Luzardo, Viana Moog, Lindolfo Collor, Gustavo Capanema, Paulo Prado, Sérgio Buarque de Hollanda, Gilberto Freyre, Luís Carlos Prestes, Plínio Salgado na extrema-direita, Agildo Barata na esquerda, nas artes os Modernistas, os Nordestinos, Érico Veríssimo, Villa Lobos, Tarsila do Amaral, Anita Malfatti, Monteiro Lobato, Humberto Mauro, sem falar que Mário de Andrade praticamente fundou o conceito de patrimônio histórico entre nós, transformando montões de pedras em respeitáveis ruínas. Nunca houvera, nunca mais houve uma geração como esta. Getúlio aproveitou. Beneficiou-se: com o trabalhismo e a Petrobrás, fez-se um desbravador.
Dutra foi um administrador da Guerra Fria no Brasil. Juscelino foi um desbravador, de territórios e do futuro. Jânio foi um candidato a desbravador, administrador frustrado por incapaz de administrar a si mesmo, como Collor. João Goulart não conseguiu ser nem uma coisa nem outra: sucumbiu ao golpe, e ficará, embora com a aura de único presidente a morrer no exílio (como o Imperador D. Pedro II) , com a pecha de ser o gaúcho que não resistiu.
Dos ditadores, o único desbravador foi Geisel, que desbravou a distensão e a abertura. Além disso, foi na sua presidência que o Brasil desalinhou-se do apoio automático aos Estados Unidos e também livrou-se do apoio ao colonialismo português. Castelo quis administrar a ditadura, e foi engolido por ela; Costa e Silva foi administrado por sua trombose, ou pela trombose de sua ambição. Médici administrou o Milagre do Horror e o Horror do Milagre, e por isso será sempre lembrado no Inferno mais lúgubre de nossa política. Já Figueiredo foi um administrador de valor, conseguindo manter a consigna de Geisel até o