Aconteceu em Santa Clara, interior paulista, na segunda-feira do feriado de Tiradentes. O dia, aliás, parece ter propiciado a ressurreição do espírito de revolta, oculto ou morto nos espíritos humanos. Desta vez, o grito - ou berro - de libertadade partiu de uma manada de bois que fugiu do curral de uma companhia de rodeios, instalada provisoriamente na cidade. A revolta foi digna de dar inveja aos inconfidentes, 270 anos depois. É, é chegada a vez dos animais, ou dos bois, especificamente. Viram, os bois, que os brasileiros nada fazem perante a tanta onda de violência, descaso das autoridades com saúde, educação, saneamento, e com eles próprios - os bois - que são nada menos que animais maltratados em arenas para a diversão dos pobres mortais. Não! - devem ter pensado, porque acho que boi também pensa. Articularam uma fuga, cinco deles conseguiram quebrar a cerca podre que os separava da liberdade e ganharam as ruas do município. Um deles, esperto, soube direcionar seu protesto. Nada melhor para um boi que invadir uma cozinha - onde carne de sua cria é fatiada e devorada todos os dias - e quebrou o que viu pela frente. Os moradores se trancaram no banheiro, porque sabiam que boi não gosta de banho. Seja qual for o seu nome, esse boi foi um herói, não fugiu, até ser capturado. Mas o mártir mesmo foi outro, que atacou um homem provavelmente bêbado numa esquina e foi morto a tiros. Deitou ali, na rua, e não se sabe o seu fim. Deveriam erguer naquele local uma estátua sua, como a do touro da Wall Street, como sinal de braveza. Foi o preço que ele pagou por sua liberdade, e, consequentemente, rebeldia. Ninguém sabe o fim dos outros três fugitivos, pobres animais que por alguns momentos tiveram a liberdade longe do açoite diário de suas exibições em touradas e rodeios. Tiradentes e outros inconfidentes devem ter se orgulhado. Fizeram escola, e muito mais que isso: foi preciso que uma pequena manada mostrasse a 180 milhões de brasileiros como se faz uma revolta. Leandro Mazzini é jornalista.
A revolta dos bois
Por Leandro Mazzini - Aconteceu em Santa Clara, interior paulista, na segunda-feira do feriado de Tiradentes. O dia, aliás, parece ter propiciado a ressurreição do espírito de revolta, oculto ou morto nos espíritos humanos. (Leia Mais)
Quarta, 23 de Abril de 2003 às 18:23, por: CdB