Márcio Souza lançou em Belém, no final do mês passado, com patrocínio oficial do governo do Estado, o terceiro livro da tetralogia Crônicas do Grão-Pará e Rio Negro. O título, Revolta (Editora Record, 301 páginas), ficaria mais coerente se fosse algo como "O garanhão do Grão-Pará". Do início ao fim, Maurício Vilaça traça quase todas as personagens do romance, desde uma ninfeta de 13 anos, mas já prostituta experimentada, até pudica senhora integrante de uma associação de novas amazonas, uma precursora liga feminina que atuou no período dos "motins políticos" no Pará (1821-1835), que constitui o eixo da sagra do escritor amazonense. O romance termina como alguns daqueles filmes sangrentos, no qual o enredo se exaure no matadouro geral. Quase não havia mais mulher para o apetite voraz (e sempre eficiente) do jovem comerciante.
Marcelo foi educado em Baltimore, nos Estados Unidos, é refinado, mas o maior movimento de massa da história brasileira, a Cabanagem, é detalhe, para ele e seu diário (sobre o qual a trama ficcional - mal - se sustenta). Nessa autêntica guerra "dos que não têm contra o que têm", sucumbiram algo como 20% de todos os habitantes da província, que eram uns 150 mil. Se tivesse ocorrido atualmente, nas mesmas proporções, a Cabanagem teria produzido dois milhões de mortos em cinco anos. Há algo que se lhe equipare ao longo dos cinco séculos de Brasil dominantemente europeu? Ou, em episódios do mesmo tipo, em qualquer outra parte do mundo?
O morticínio é produto de violência, arbítrio, desumanidade, barbárie. É quase natural que um branco, que tem a temer por muitos bens seus (embora recebidos de herança, um tanto suspeita, deixada por um tio), considere a revolta como a liberação dos piores instintos do homem. A revolução francesa também foi isso para os que dela participaram, na condição de vítimas, por deliberada culpa ou por acaso.
Mas Bertolt Brecht já alertava para o perigo de só se olhar para a violência do rio, sem ter em conta as margens que o comprimem. A violência dos que se liberam guarda sempre alguma proporção com a violência dos que os mantinham cativos até então. A violência é a parteira da história, proclamava Karl Marx. Não se faz omelete sem quebrar os ovos, acrescentará algum líder de esquina.
A revolta de Belém em 1835 antecedeu de quase quatro décadas a revolução da Comuna de Paris, em 1871, analisada com olho clínico pelo mesmo Marx, que ali sepultou seus últimos sonhos de insurreição política de massa (no fim da vida estudou russo para entender melhor a possibilidade de a revolução, etapa superior do capitalismo e seu dobre de finados, ocorrer numa terra de economia primitiva, na qual intelectuais de vanguarda comandariam, num autêntico putsch, uma massa humana sem outra perspectiva além do pão e da liberdade, a segunda conquista sendo sacrificada, logo em seguida, no altar profano da primeira; só sem liberdade era possível viver sem susto; era?).
O que diferencia a Cabanagem, anterior, mais atrasada, da Comuna, posterior, mais evoluída? Ora: que Belém, mesmo saindo mais cedo, não era nem uma pálida imagem de Paris, antes ou depois das barricadas de rua, que acabariam provocando uma contra-revolução urbana, promovida com sagacidade pelos vencedores, que abriram as grandes avenidas para sua dominação. Embora em ambas as situações o motor da explosão tenha sido a insatisfação do povo, comprimido até o ponto da irrupção selvagem, na Comuna havia idéias e substrato ideológico por trás das barricadas, não só pólvora e sangue.
Em Belém, uma vez executados os representantes do poder estabelecido (que ainda era português, apesar de formalmente nacionalizado), não havia um líder esclarecido nem um programa a cumprir pelo governo popular. Apesar da idealização que Dilke Barbosa Rodrigues promoveu em torno do avô, Eduardo Angelim, repetida sem discernimento pelos sucessores (nem por acaso, o livro que ela escreveu nunca passou da primeira edição), nã