Rio de Janeiro, 20 de Setembro de 2026

A reta final da eleição alemã

Por Flávio Aguiar - A seis dias da eleição nacional alemã, os ventos estão enfunando as velas da direita. Mas ainda haveria espaço para ela se dar mal. Haveria: pois em tese os votos dos partidos considerados “à esquerda”, no espectro da mídia alemã (SPD, Verdes e Linke) devem mais ou menos empatar com os da direita (CDU/CSU e FDP), em torno de 45%.

Segunda, 16 de Setembro de 2013 às 09:59, por: CdB
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A seis dias da eleição nacional alemã, os ventos estão enfunando as velas da direita
A seis dias da eleição nacional alemã, os ventos estão enfunando as velas da direita. Mas ainda haveria espaço para ela se dar mal. Haveria: pois em tese os votos dos partidos considerados “à esquerda”, no espectro da mídia alemã (SPD, Verdes e Linke) devem mais ou menos empatar com os da direita (CDU/CSU e FDP), em torno de 45%. Estes últimos somam na pesquisa publicada pela Der Spiegel no fim de semana, 44% (CDU/CSU, 39% e FDP, 5 %), contra exatos 45% dos outros (SPD, 26%, Verdes, 10%, Linke 9%). Mas ocorre que certamente a direita estará unida no caso do FDP conseguir ultrapassar a cláusula de barreira de 5% dos votos. E certamente a esquerda estará desunida: vastos setores do SPD e dos Verdes recusam qualquer possibilidade de compromisso com a Linke, partido definido por aqueles com “herdeiro” da Alemanha comunista. Apesar disto, a Linke comprometeu-se a apoiar um eventual governo minoritário formado por SPD e Verdes. Os ventos favoráveis à direita vieram de duas fontes. A primeira fonte veio da revista The Economist, que publicou na semana passada um comentário em tom de editorial dizendo que a hipótese da reeleição de Angela Merkel era a melhor não só para a Alemanha, mas para a Europa inteira. Dada a ferrenha oposição que a revista vem fazendo à presidenta Dilma Rousseff do Brasil, não surpreende este apoio a Angela Merkel, vista como a campeã da “austeridade” não só na Europa, mas no mundo inteiro. A segunda veio de dentro da própria Alemanha. No domingo passado (15/09) houve eleição provincial na Baviera. Este estado do sul da Alemanha é visto como tradicionalmente o mais conservador de todo o conjunto. O resultado do domingo confirmou esta tradição, mas de uma forma que chegou a surpreender a própria direita alemã. A CSU – União Social Cristã, co-irmã da União Democrata Cristã da chanceler – ganhou de lavada, com 47,7% dos votos, soma que, apesar de não ser uma maioria, lhe permite formar um governo sozinha. Dos oponentes, o SPD ficou com 20,6% e os Verdes, com 8,6%. Os demais – tanto o FDP, à direita, como a Linke, à esquerda, mais Piratas e outros pequenos partidos ficaram de fora do Parlamento, não ultrapassando a cláusula de barreira. A Baviera é o estado mais rico do país; tem o menor índice de desemprego do país (3%), e Munique, sua capital (é verdade que administrada pelo SPD) está entre as dez cidades do mundo de melhor qualidade de vida. É um estado de forte tradição católica conservadora, sendo muitas vezes apresentado como “uma Alemanha à parte”, embora no momento não haja qualquer movimento separatista nele. Seu primeiro-ministro agora reconduzido, Horst Seehofer, tem apresentado propostas que algumas vozes, mesmo na mídia conservadora, apontam como “populistas”, como a da criação de um pedágio especial nas estradas alemãs para carros de placas estrangeiras que nelas circulem. Se o resultado bávaro dá, inegavelmente um alento a mais para a campanha da chenceler no plano nacional, porm outro lado ele acendeu uma luz amarela no fim do túnel desta eleição. O FDP está por um fio de cabelo. Se ele não for levado ao Parlamento, com sua votação em torno de 40% a dupla CDU/CSU não terá condição de formar um governo. A solução seria repetir a fórmula da primeira gestão de Merkel, fazendo a chamada “Grande Coalizão” com o SPD. O candidato a chanceler do SPD, Peer Steinbrück (que foi ministro das Finanças no primeiro governo da chanceler), declarou repetidamente que não vai integrar um governo desta natureza, o que poderia levar o SPD a um impasse. Além disto, a hipótese de uma Grande Coalizão afastaria mais gente do SPD, carreando no futuro mais votos para Verdes, Linke e até Piratas. No caso de se formar esta Grande Coalizão não se espera alteração significativa na política alemã para o restante da Europa, apesar da The Economist temer este suposto esquerdismo do SPD, na verdade, nos últimos anos, cada vez mais suposto e cada vez menos à esquerda. É verdade que na campanha Steinbrück acenou com diversas guinadas mais para a esquerda, tanto no plano interno quanto externo. Mas tais guinadas, embora muito moderadas, só poderiam se afirmar no caso da formação de um governo com os Verdes, com apoio da Linke por fora. O voto na Alemanha não é obrigatório. O resultado vai depender agora das respectivas capacidades de mobilização dos partidos – sobretudo do FDP. Seu destino é incerto. Nas últimas eleições reuniu cerca de 15% dos votos, o que lhe possibilitou formar a coalizão com Merkel. Mas uma série de erros – entre eles o da disputa de espaço entre seu líder, Guido Westerwelle, ministro de Relações Exteriores, e a própria chanceler, levaram o partido a perder este “capital acumulado”, e hoje sua presença no Bundestag está ameaçada.   Flávio Aguiar é correspondente internacional da Carta Maior em Berlim.
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