Rio de Janeiro, 15 de Maio de 2026

A restauração da moralidade

Por Mauro Santayana - O ministro Nélson Jobim se insinua como o homem providencial para disputar a presidência em 2006. O cidadão Nélson Jobim tem esse direito, mas o presidente do Supremo, se quer dedicar-se à política partidária, deve, antes, renunciar à chefia do Poder Judiciário. (Leia Mais)

Segunda, 01 de Agosto de 2005 às 19:20, por: CdB

Há 50 anos, nos "anos dourados" do século passado, o cronista Sérgio Porto criou o apelo ético: "locupletemo-nos todos, ou restaure-se a moralidade". Sérgio denunciava os pequenos escândalos da administração pública, condenáveis, é certo, mas de dimensões bem modestas. A oposição, chefiada pela UDN, procurava desestabilizar o governo com suposições. Homens que morreriam pobres, deixando a família em dificuldades, eram enxovalhados em sua honra, sem qualquer prova. Era o jogo clássico da oposição contra o governo. Entre as comissões parlamentares de inquérito que marcaram aquele tempo houve a que investigou o financiamento do jornal Última Hora pelo Banco do Brasil - que nada provou de ilícito - iniciando o processo de cerco contra o governo Vargas.

Era um tempo em que a política preferia o drama - como foi o suicídio de Vargas - à farsa. Entramos na era da farsa com a eleição de Jânio Quadros que, com a irresponsável tentativa bonapartista, jogou o país na perplexidade, na indecisão e, por fim, na incapacidade de resistir aos golpistas de 1964.

Nos vinte e um anos que se seguiram, não houve renovação natural dos quadros políticos. Alguns homens públicos, como foram Ulysses, Tancredo, Teotônio, Brizola, Franco Montoro, conseguiram sobreviver, a duras penas, naquele período, e puderam reconstruir o Estado democrático, mas não tiveram tempo para identificar herdeiros para as suas idéias. A morte, no decorrer de poucos anos, desses grandes homens, deixou a Nação desamparada de lucidez política.

Se alguma lição podemos tirar destes últimos quarenta e um anos, é a de que, fora dos ritos difíceis da democracia, não há salvação para as sociedades nacionais. É bom que governo e oposição meditem bastante nisso, e ajam em conseqüência.

Mas, também, como advertia Sérgio Porto naqueles anos, que se restaure a moralidade, mesmo porque não há como todos os brasileiros se locupletarem.

A inquietação militar

Não há como esconder a inquietação nos quartéis. Os militares têm sido - como todo o funcionalismo público - vítimas de uma austeridade fiscal que contrasta com os escândalos recentemente descobertos. É necessário entender que os militares estiveram contidos durante o governo passado, quando grandes empresas estatais, criadas e desenvolvidas durante o seu período, foram simplesmente doadas a investidores estrangeiros. Não foi com alegria que assistiram à invejável estrutura de telecomunicações, à indústria siderúrgica, a Petrobrás e a Vale do Rio Doce serem esquartejadas e distribuídas aos aventureiros. Eles as haviam criado em esforço para garantir a soberania nacional. Além disso, ainda não engoliram a abertura do país aos serviços de informação dos Estados Unidos que aqui atuam como atuam em Porto Rico.

O governo atual cometeu o imenso erro de não ajustar os seus vencimentos, embora haja prometido essa providência. Como se sabe, a equipe econômica tem beneficiado o pagamento de juros de uma dívida herdada do governo passado e favorecido os bancos privados. Leais à Constituição, os chefes militares mantêm, a duras penas, a disciplina nos quartéis.

E não convém à oposição explorar essas dificuldades, na ilusão de que elas lhes são favoráveis. Se os militares estão descontentes com o governo atual pelas razões conhecidas, estão mais descontentes ainda com o governo do Sr. Fernando Henrique, também pelas razões conhecidas.

Respeito ao Supremo

O ministro Nélson Jobim se insinua como o homem providencial para disputar a presidência da República no ano que vem. O cidadão Nélson Jobim tem esse direito, tanto quanto o cidadão José da Silva. O presidente do Supremo, se quer dedicar-se à política partidária, deve, antes, renunciar ao cargo de chefe do Poder Judiciário. Como se orgulha de seus conhecimentos constitucionais, seria uma forma de respeitá-los e respeitar o mais elevado tribunal do país.

Conta-se que o ex-ministro do Supremo, Orozimbo

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