A situação é bem complexa. Antes de tudo, revela o enfraquecimento das forças golpistas
28/04/2011
Editorial Ed. 426
As grandes paralisações convocadas pela Frente Nacional de Resistência Popular (FNRP) mobilizaram toda a nação hondurenha entre 30 de março e 12 de abril.
Estradas e portos bloqueados, ocupações de fábricas e escolas, concentrações populares nas principais cidades demonstraram a força da resistência
ao golpe civil-militar. Honduras segue atravessando uma intensa crise econômica, agravada pelo isolamento político em razão do golpe civil-militar de 2009. A disparada dos índices e desemprego, dos preços dos alimentos e combustíveis afeta intensamente a população. O Estado hondurenho endividado não encontra
fontes para garantir o pagamento de dívidas como a que tem com os professores e já sinaliza que não terá como garantir a folha de pagamento se a ação prosseguir.
O imperialismo estadunidense patrocinou o golpe, mas sequer cumpriu suas promessas de apoio financeiro, deixando a direita hondurenha diante de uma profunda crise. O regime de Pepe Lobo sobrevive às custas da repressão e já assassinou mais de 200 lutadores populares. Desmoralizado internacionalmente,
sem o apoio econômico dos EUA que não quer enfrentar a pressão internacional e pressionado por mobilizações crescentes, os golpistas encaram seu maior impasse.
Com esse cenário de isolamento internacional, o presidente golpista Pepe Lobo articula-se com o presidente colombiano Juan Manuel Santos, propondo uma negociação internacional que envolva o presidente legítimo – deposto pelo golpe - Manuel Zelaya.
Os setores golpistas hondurenhos sempre elegeram o presidente da Venezuela, Hugo Chávez Frias, como seu principal inimigo. Satanizaram o governo de Zelaya por sua entrada na Aliança Bolivariana para as Américas (Alba) e construíram uma intensa propaganda ideológica contra a revolução bolivariana.
Agora, isolados internacionalmente e pressionados pela mobilização popular, buscam a intermediação de Hugo Chávez para uma solução negociada. Após o encontro dos presidentes, no começo de abril em Cartagena das Índias (Colômbia), realizou-se em 15 de abril, em Caracas, a primeira reunião entre Chávez, dirigentes da FNRP e o presidente legítimo de Honduras, Manuel Zelaya.
A FNRP deixou claros os seus pontos para qualquer negociação com os golpistas: retorno imediato do presidente eleito constitucionalmente e os exilados, fim da repressão e garantia aos direitos humanos e sociais assegurados na Constituição, realização de um plebiscito sobre a convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte livre, soberana e democrática, e o reconhecimento da própria FNRP como força política.
Para os golpistas é fundamental assegurar o retorno à OEA (Organização dos Estados Americanos) e o acesso ao combustível da Petrocaribe. Mas também romper o cerco internacional que inviabilizou recursos de organismos multilaterais, especialmente de países da União Europeia.
A situação é bem complexa. Antes de tudo, revela o enfraquecimento das forças golpistas. Além disso, demonstra ainda a importância da unidade das forças populares que soube fortalecer-se na construção de uma ferramenta de lutas e organização como a FNRP. Como disse Manuel Zelaya: “Em dois anos, esta é a primeira vez, ante as várias tentativas de acordo, que se manifesta a vontade para se ouvir nosso ponto de vista, dificuldades e privações, isso, por si só, constitui um importante avanço”.
Outro aspecto é ressaltar a importância de incluir o presidente venezuelano Hugo Chávez no processo negociador. Inquestionável liderança anti-imperialista, intensamente atacado pelos golpistas, sua presença demonstra a força da pressão popular que resiste ao golpe.
Ninguém alimenta ilusões nas forças golpistas e principalmente no imperialismo estadunidense representado também pela presença do governo colombiano. Recordemos que o principal pretexto para o golpe em 2009 foi a realização de uma consulta à população sobre a realização ou não de uma Assembleia
Nacional Constituinte, tendo o golpe ocorrido na data em que essa consulta seria realizada (28 de junho de 2009).
Os setores golpistas que acabam de decapitar dois jovens camponeses que integravam a resistência popular são capazes de trair qualquer compromisso. A única garantia do povo é sua capacidade de mobilização.
Abre-se um intenso debate que se inicia na direção nacional da FNRP, que realizará um encontro no final de abril e deverá envolver todos os organismos de base que a conformam. Trata-se de uma decisão difícil. Com certeza, a volta de Zelaya, como a maior liderança popular, que unifica as forças, representará um novo impulso para a resistência e uma inquestionável vitória contra o imperialismo.
Um povo que se mobiliza, num exemplo para todo o nosso continente, somente pode confiar na sua capacidade organizativa e na solidariedade internacional. Avançando ou não o processo negociador, o elemento principal é que a FNRP não cogita, em nenhuma hipótese, reduzir sua disposição de luta.