Os demônios andam a solta no Brasil, mas disfarçados com a plumagem tucana! Todo o debate em curso sobre a reforma sindical foi atropelado pela grave crise política instalada no país. Há uma forte sensação, nos meios sindicais, empresariais e políticos, de que a reforma não tem mais condições de vingar na atual legislatura. A instalação da CPI dos Correios, do Mensalão e de outras tende a concentrar os holofotes no próximo período. Na seqüência, inicia-se formalmente a campanha eleitoral - que, na prática, já começou. Não há mais clima para votação de reformas constitucionais, que exigem quorum qualificado. Se antes já tinham desmoronado os "consensos" em torno do projeto da reforma, agora a coisa empacou de vez.
Diante das denúncias de corrupção feitas pelo suspeito deputado Roberto Jefferson - um franco atirador que a mídia tenta travestir de réu em acusador -, o país está parado, em estado de choque. Neste cenário inflamável, com fortes odores golpistas, o debate sobre a reforma sindical caiu naturalmente no vazio. O que está em discussão é o futuro do governo Lula. O PSDB, expressão orgânica do capital financeiro, está excitado com a possibilidade de retornar bem mais cedo ao Planalto. Aposta tanto na morte prematura do atual governo, com o impeachment do presidente, como na sua morte lenta e agonizante. "Vamos deixar o Lula sangrando e vencer as eleições", orientou FHC, o inimigo público número um dos trabalhadores.
A frenética movimentação das forças golpistas inclusive já conseguiu a adesão da Força Sindical, central de direita fundada com subsídios nada éticos do governo Collor de Mello, em março de 1991, e que teve ativo papel na defesa do neoliberalismo durante o triste reinado de FHC. Segundo seu boletim eletrônico de junho, a FS participou de "uma manifestação bem-humorada, com apito, nariz de palhaço e máscaras representando o presidente Lula. Com essas armas, representantes da Força Estudantil e da Juventude do PSDB, PPS e PFL protestaram contra a corrupção no país". O panfleto também relata outra articulação em curso com poderosas entidades empresariais, como a Fiesp e a Associação Comercial de São Paulo.
O cenário é preocupante e de conseqüências imprevisíveis. Mesmo os setores descontentes com os rumos do governo Lula e radicalmente contrários ao seu projeto de reforma sindical não podem se regozijar com o seu "inferno astral" e o esvaziamento da proposta. O que está em jogo é algo bem maior. Caso vingue a tática da oposição liberal-conservadora, o futuro da reforma sindical e trabalhista será mais tenebroso. A revanche neoliberal será maligna! É bom não esquecer a forma truculenta como FHC sempre lidou com o sindicalismo - acionando o Exército contra a greve dos petroleiros logo no início de seu reinado, impondo várias medidas provisórias de flexibilização trabalhista ou se recusando a negociar com o funcionalismo.
Se o governo Lula não conseguir sair da camisa-de-força em que ele próprio se meteu, a reforma sindical e trabalhista será postergada para o próximo governo e num cenário mais adverso - diante da frustração e derrota do projeto popular. Até por uma questão de sobrevivência, para não jogar fora uma oportunidade histórica ímpar, o presidente precisa sinalizar com mudanças no rumo do seu governo, comprometendo-se a transitar do neoliberalismo para um projeto de desenvolvimento com valorização do trabalho. Só desta forma, conseguirá reanimar as esperanças do povo e ativar os movimentos sociais em sua defesa. Todo o seu instinto de classe, que o projetou como maior líder operário da história do país, precisa vir à tona!
Por sua vez, o sindicalismo não pode ficar apático diante dessa batalha crucial. A omissão seria um grave crime. Ele deve ir às ruas para denunciar a trama golpista da direita, para exigir a apuração rigorosa das denúncias de corrupção e para pressionar por mudanças nos rumos do país. Somando forças com o MST, a UNE e outros setores pop