O presidente Lula está encontrando muito mais dificuldades para formar seu novo ministério do que poderia esperar. Como sempre ocorre em situações semelhantes, o problema está entre os amigos mais íntimos. Lula, por sua formação e índole, não quer desfazer-se de seus companheiros de muitos anos. Há pouco repetiu a famosa frase de De Gaulle, a de que o primeiro dever de um chefe de Estado é a ingratidão, mas não parece ainda preparado para seguir o conselho. Por outro lado, além do problema pessoal, confronta-se com a reação institucional do PT, que, conforme o ditado francês, quer ficar, ao mesmo tempo, com o repolho e com a cabra: manter o poder de fato na administração do Estado e assegurar os votos necessários no Parlamento.
Até 1964 os presidentes da República obedeciam a critérios lógicos para compor o Ministério. Procuravam respeitar, mais do que hoje, o desenho federativo. Na restauração do poder civil, Tancredo seguiu essa orientação, que aprendera com Getúlio, e isso lhe exigiu uma costura política invejável. Mesmo assim, foi obrigado a superestimar alguns Estados em detrimento de outros, como ocorreu no caso da Bahia, cuja representação política não justificava a presença de quatro ministros (Antonio Carlos, Carlos Santana, Waldir Pires e Roberto Santos). Era preciso aproveitar todas as correntes políticas que, mesmo adversárias entre si na Bahia, haviam contribuído para a vitória no Colégio Eleitoral.
Esse critério, de certa forma, foi seguido também por Sarney, ao reformar o ministério, dois anos depois. Ele pressupõe o respeito à representatividade federativa e partidária, sem esquecer a experiência administrativa dos escolhidos. Desse cuidado esgueirou-se Collor, mesmo porque não estava, a rigor, escolhendo um Ministério. Com a exceção de alguns nomes respeitáveis e conhecidos, arranjados a fim de dar respeitabilidade ao governo, Collor não se preocupou em formar um Ministério, mas, sim em organizar uma patota.
Fernando Henrique Cardoso escolheu seus amigos paulistas e cariocas para os postos mais importantes. Não levou em consideração o critério federativo. E esse foi um dos pecados de Lula: manteve o "núcleo duro" do governo em mãos paulistas, relegando aos petistas de outros Estados as pastas menos importantes. Além disso, construiu uma maioria de ministros petistas - quando os votos do partido, no Parlamento, não lhe garantiam tal posição em um governo de coalizão.
Lula deixou escapar agora a dificuldade de demitir alguns ministros, ao lembrar a famosa boutade de Eduardo Portela, que, indicado pelo escritor Guilherme de Figueiredo, para ocupar a pasta da educação no governo de João Figueiredo, viu-se "fritado" pela imprensa e disse que não era ministro, estava ministro. Segundo Lula deixou escapar, muitos de seus ministros acham que são ministros, que não estão ministros.
Uma boa técnica para atender, ao mesmo tempo, à aspiração partidária e aos interesses do presidente é a de inverter o processo: apontar a cada partido três ou quatro nomes convenientes para as pastas disponíveis e deixar que a agremiação opte entre eles. Mas esse método geralmente encontra a oposição dos líderes partidários, que preferem indicar os nomes e, só mediante muitas negociações, aceitar a sua substituição por outros.
Lula dispõe de uma vantagem: ele tem muito mais prestígio pessoal do que o governo. Isso lhe assegura liberdade de ação, mas não o isenta de certos cuidados políticos. Tancredo dizia que escolher um ministério é como formar um diretório partidário; é preciso, na medida do possível, atender a todos os segmentos do universo em questão: seja no diretório de uma pequena cidade dos grotões, seja o diretório nacional.
Há várias especulações quanto ao futuro ministério sobre o tapete verde da Câmara dos Deputados. Não são muito alentadoras. Mas há tempo para que o presidente possa escolher com tranqüilidade. Uma coisa não parece aconselhável. Segundo os boatos, Lula irá a