A grande imprensa insinua em editoriais que no segundo mandato o governo Lula quer "aparelhar" a Radiobrás (nota 1). "Transparece agora o propósito de transformar a Radiobrás em um dócil instrumento a serviço dos interesses políticos do atual governo federal", diz o editorial do Estadão.
Mas será isso mesmo? A discussão parece ter nascido de alguma disputa por espaço no segundo mandato, que a grande imprensa aproveita para reforçar mais uma vez no imaginário social a idéia de um PT "stalinista e aparelhista". A cobertura desse caso é feita com pouca informação e muita cascata ideológica (2).
Seja qual for o motivo, a discussão é bem-vinda e oportuna porque a política editorial da Radiobrás nunca foi discutida publicamente no primeiro mandato (3). O que a nova direção fez foi um daqueles exercícios internos de "planejamento estratégico" definindo "valores" e "missão", igualzinho ao que fazem grandes empresas privadas (4). Dessa abordagem anódina, e num quadro de ambigüidades generalizadas que caracterizou o primeiro mandato, surgiu o conceito ambíguo de "jornalismo público", base da política editorial da Radiobrás no governo Lula. É esse conceito que tem que ser discutido, e não o falso dilema "aparelhar ou não aparelhar".
Mas, antes: por que a política editorial do mais importante sistema de comunicação do governo nunca foi discutida mais profundamente pelo governo?
Primeiro, porque o governo Lula, no seu primeiro mandato, não colocou a comunicação no plano estratégico em que deve estar hoje em qualquer organização importante, pública ou privada. Mais ainda no caso de um governo hostilizado pelas elites e que representava uma mudança transcendental no panorama político do Brasil e da América Latina.
Segundo, porque desde o início faltou unidade no comando da comunicação, com duas chefias estanques: a Secretaria de Imprensa da Presidência, que cuida essencialmente das relações entre o presidente e os jornalistas, e a Secretaria de Comunicação de Governo e Gestão Estratégica (Secom), que cuida essencialmente das verbas e estratégia de publicidade do governo. A Secom concentrou-se em comunicação paga (propaganda) e algumas ações de apoio a ministérios, deixando à nova equipe da Radiobrás ampla autonomia. Isso levou essa nova equipe a definir endogenamente sua linha editorial, sem debatê-la com o governo como um todo. Assim nasceu, paradoxalmente e sem um debate público, a proposta da autodenominada "comunicação pública" e/ou "jornalismo público".
Mas o que é "jornalismo público"?
A explicação está no artigo "O jornalismo público não pode ser chapa branca" (5). O título já diz muito. Foi um conceito definido principalmente pelo que ele não é, pela preocupação em não fazer comunicação de governo. A intenção parece boa. Tanto assim que os autores falam na necessidade de objetividade no jornalismo e argumentam que não há contradição entre esse tipo de comunicação e um governo democrático. Descrevem o âmbito desse jornalismo como um triângulo formado pelo Cidadão, o Estado e o Governo.
Mas na definição de "comunicação pública" da Agência Brasil, principal veículo jornalístico da Radiobrás, o que menos entra é o Estado e menos ainda o governo. A definição é um pequeno rol de princípios (6) que não menciona as ações e decisões de governo como seu objeto e específico de interesse.
Essa definição por negação acabou sendo a mãe de problemas e equívocos da cobertura da Radiobrás no primeiro mandato. Em primeiro lugar, porque sendo a única grande agência de notícias sediada na capital da República, atos e ações de governo deveriam ser seu foco principal, mesmo que a Agência Brasil não fosse estatal (7). Por sua inserção estratégica, e não por ser estatal, a Agência Brasil era fonte primária de informação correta sobre atos e decisões do governo para todas as redações e correspondentes estrangeiros.
A nova equipe acabou criou uma falsa discussão - essa qu
A Radiobrás no governo Lula
Por Bernardo Kucinski: A Constituição determina que o país deve ter um sistema de comunicação com três eixos: público, privado e estatal. Hoje, temos uma comunicação dominante de caráter privado de má qualidade, uma comunicação pública débil e fragmentada, e uma comunicação estatal que ficou com vergonha de ser estatal. (Leia Mais)
Sábado, 25 de Novembro de 2006 às 08:20, por: CdB