Os gênios sempre pensam a mesma coisa, ainda que com frases diferentes. Em esguia passagem de "Ulysses", James Joyce faz o seu personagem constatar, assustado, que a História é um pesadelo, do qual tentamos, em vão, despertar. Em outro livro marcante do século, "Grande Sertão: Veredas", Guimarães Rosa nos adverte, com Riobaldo, que viver é muito perigoso. Vizinhos do Absoluto, os monges trapistas são mais sucintos; só quebram o voto de silêncio na saudação cortante: irmão, lembre-se de que vai morrer.
Madri sempre foi uma das mais movimentadas esquinas do mundo. Ali convivem, no presente e na memória histórica, todas as grandes paixões do homem. A paixão do poder, tão forte nos Habsburgo, com Carlos V, e Felipe II, durante a expansão imperial; a paixão do despotismo, com Olivares e, mais recentemente, com Franco. A paixão política, em sua brava resistência contra a rebelião dos fascistas, na Guerra Civil de 1936-39, a paixão do risco, que se expressa na tourada, e, finalmente, a paixão das artes, como a dança, a pintura e a literatura.
O atentado de quinta-feira é mais um episódio horrível e condenável da movida crônica espanhola. Tratou-se de uma ação cruel, de uma emboscada brutal, e que vitimou trabalhadores modestos, porque os ricos não viajam em trens suburbanos. Mas é quase certo que ele não se deva aos conflitos internos contemporâneos. Como no episódio dos atentados de 11 de Setembro, nos Estados Unidos, da catástrofe de Madri não há responsáveis claramente identificáveis. Há ainda quem não aceite a versão de que a explosão do World Trade Center tenha sido uma operação apenas da Al Qaeda, ou mesmo com a cumplicidade da Al Qaeda: lembre-se que Bin Laden negou a sua responsabilidade no primeiro momento. Não nos devemos esquecer de que o assassinato de Kennedy é ainda um caso aberto, como, de certa forma, não é um caso definitivamente concluído o atentado de Oklahoma. Há mais mistério na atitude de Timothy McVeigh, ao confessar-se o único responsável, do que na ação e nos reais motivos do atentado - quase tão grave quanto o de Madri.
Além das implicações policiais e políticas do atentado, seja quem for o responsável direto pela ação, o que está em jogo é a velha luta pela vida, que fingimos não admitir. Os fortes e ricos não aceitam que outros possam ser ricos e fortes. Podemos encontrar todas as explicações para o desenvolvimento de uns em detrimento dos outros, da riqueza de uns e da pobreza dos outros, mas no fundo, é a velhíssima constatação de Plauto, de que o homem é o lobo do homem, que parece a mais lúcida.
O atentado de Madri parece ser uma resposta do terror a uma forma de opressão. Se foi obra de ETA, é a manifestação de um povo que nada tem, na etnia e na cultura, com os espanhóis, e que sofreu, em Guernica, em 1937, uma agressão (combinada entre o ditador espanhol Franco e os alemães, a fim de testar o bombardeamento de populações civis) tão covarde quanto a de Madri; se é uma ação do Islã, se trata, conforme o manifesto divulgado em Londres, da aplicação da velha lei de Talião: se o Ocidente mata inocentes muçulmanos, por que não podem os muçulmanos matar inocentes ocidentais? "L`enfer sont les autres" - já dizia Sartre. Mas há ainda hipóteses ainda mais tenebrosas e que invertem a razão dos atos: por que esse atentado a exatamente 72 horas das eleições espanholas? Por que esse atentado, agora, quando Bush está sendo derrotado pela opinião pública interna, também em plena campanha eleitoral? Quem tira proveito desse atentado? Não serão os iraquianos, nem os bascos. Quem se beneficia, e objetivamente, é a direita espanhola, chefiada por Aznar, e a norte-americana, conduzida pelos Bush, e a direita italiana, com Berlusconi, e, finalmente Blair, ainda sob ameaça de um voto de desconfiança no Parlamento.
Quando os pequenos bandidos seqüestram e matam suas vítimas, estão exercendo o que poderíamos chamar de terrorismo de bolso, o pequeno terrorismo. Quando uma jovem atrai um