Rio de Janeiro, 06 de Abril de 2026

A queda da seleção espetacular mercantil

Por Katarina Peixoto - O Brasil não jogou direito porque jamais teve um time, uma equipe, neste triste campeonato espetacular e mercantil, que assolou o imaginário do país. Parreira disse que era mais um gerente de talentos do que um treinador. Antecipou o que estava por vir. (Leia Mais)

Domingo, 02 de Julho de 2006 às 09:32, por: CdB

O Brasil saiu da Copa do jeito que entrou. Jogando na contingência, escorado no espetáculo mercantil que transfigurou - mas não transformou - o futebol em slogans imaginários cravados num aglomerado de estrelas milionárias. O que interditou a suposta vingança, contra a França? Isso, um time inexistente, porque time de futebol é coisa que ainda não está, exatamente, à venda. Vendem-se e compram-se craques, técnicos, equipe técnica, narradores esportivos, comentaristas (por encomenda), repórteres festivos.

Time de futebol, sobretudo numa copa do mundo, não se reduz ao espetáculo mercantil. Pelo menos não completamente, ou não exatamente. Dinheiro, confiança, aposta, tudo isso importa, mas não é o que determina a formação de um time, num campeonato em que gol é o milagre do detalhe buscado ou faltado. É no detalhe e na medida do que soçobra como detalhe, diante da cortina de fumaça da pressão espetacular e mercantil, que faz aparecer a realidade do que é ou deixa de ser - ou nunca foi - um time.

Time de futebol é um conjunto, desses que não se faz com a mera soma das partes, ou de estrelas. Tanto é assim que quadrado mágico ficou só na mágica e não ganhou nunca a prerrogativa de realidade. Por que? Porque futebol só é mágica depois de ser real. Futebol é na realidade um esporte coletivo, algo que acontece no confronto entre dois times. O Brasil não jogou direito porque jamais houve um time, neste triste campeonato espetacular e mercantil, que assolou o imaginário e as expectativas do país.

Dez de cada dez comerciais evocam o futebol brasileiro, nas tevês, rádios e jornais. A sexta estrela é celebrada do comercial da cerveja ao da loja de eletrodomésticos. Alguns jogadores brasileiros não vendem apenas tênis e bolas, mas desodorantes, refrigerantes, contas bancárias, sonhos de crianças pobres num universo onírico e fascinante.

Nada nesse poder imagético tem qualquer realidade e nisso talvez resida alguma lição importante e algo a levarmos para as nossas tripas doloridas com essa derrota justa.

O ensinamento que fica não depende das elucubrações a respeito do que não nos é dado a pensar pela joint-venture espetacular que assola a cobertura dos jogos. Não depende, tampouco, dos raros comentaristas críticos e devidamente paranóicos, com os tristes desempenhos da seleção que não houve. É um ensinamento que só pode ser percebido e levado a sério se conseguirmos responder a algumas perguntas.

Por que não se formou um time em momento algum? Podem objetar que o espetáculo mercantil é algo que assola o futebol mundial, uma das grandes indústrias fetichistas do financismo, e não apenas o brasileiro. Certo, mas a Alemanha tem um time de futebol jogando em campo, assim como tinha a Argentina, que perdeu por estupidez de um técnico irresponsável e em pânico.

Uma outra pergunta talvez mais delicada é esta: por que os jogadores, salvo raras e valorosas exceções, não disputaram qualquer bola dividida contra a França? Por que deixaram Zidane dançar em campo, apresentando o seu primoroso, categórico, límpido, futebol? Uma maneira covarde de responder a isso é dizendo que a França não deixou o Brasil jogar. É verdade. A covardia fica por conta de um detalhe: por que diabos o Brasil não quis jogar?

É importante e necessário dizer que Lúcio, Zé Roberto, Juan e o goleiro Dida foram os únicos, desde o início do campeonato, que estavam inteiros ali, em campo. Lúcio foi o único que manteve em contas claras, nítidas, desde o início e ininterruptamente, o compromisso com o futebol, com a seleção e com o desejo de um time. Ele é o grande jogador do Brasil, o mais honrado e o mais bravo, o mais vigoroso e compromissado.

É um paradoxo aparente o de que quatro jogadores tenham querido tanto fazer um time e que todo o resto não possa ser responsabilizado totalmente pela derrota justa para uma França inteira em campo. Como se pode destacar alguns, nomear os grandes, sustentando que não é de

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