Rio de Janeiro, 26 de Setembro de 2026

A PORTA DE ENTRADA

Sexta, 08 de Julho de 2011 às 05:08, por: CdB

Por Jorge André Irion Jobim 08/07/2011 às 10:46

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Durante minha vida, exerci duas profissões: no início fui músico profissional e posteriormente, a partir do início dos anos 90 passei a exercer a advocacia. Posso dizer que ambas me proporcionaram algumas experiências que nenhum dinheiro do mundo poderá pagar, pois me permitem discorrer a respeito de alguns assuntos que costumam aflorar na mídia de vez em quando, entre aquele que se refere à liberação da maconha.

Acontece que, tão logo o Supremo Tribunal Federal decidiu liberar as marchas de protesto, entre elas aquelas que defendem a descriminalização da maconha, as autoridades e pessoas contrárias a elas, começaram a verberar aquela velho argumento (ideia que, de tanto ser repetida sem a devida reflexão, já acabou se tornando uma crença) de que a maconha é a porta de entrada para as outras drogas mais pesadas.

Pois bem. Como músico, tenho orgulho de dizer que fiz parte de vários dos shows de rock que pululavam na cidade de Porto Alegre nos anos 70, durante os quais, muitas pessoas do público faziam uso da maconha (atos ilícitos), disfarçando o cheiro acendendo os incensos que cada um levava para dentro do recinto. Ao mesmo tempo, como profissional que era, eu também atuava em casas noturnas onde os freqüentadores iam para relaxar, conversar, dançar e namorar, tudo isso regado a muita bebida alcoólica (atos lícitos).

E a que ponto eu quero chegar com tais afirmativas? É simples. Eu quero deixar claro que nunca em um dos shows de rock nos quais atuei, eu presenciei uma cena que fosse de violência. O mesmo não posso dizer, daqueles locais onde se consumia bebida de álcool. Era muito difícil uma noite em que alguém não se excedesse na bebida e por um motivo banal qualquer, não iniciasse uma briga que muitas vezes desencadeava agressões generalizadas. E isso em qualquer ambiente, desde os mais simples aos mais sofisticados.

Assim, no exercício de minhas duas atividades profissionais, acabei conhecendo muitas pessoas que em virtude do abuso das drogas (lícitas e ilícitas) acabaram se viciando e perdendo tudo, emprego, família, amigos e a própria dignidade. Aliás, recentemente perdi um velho companheiro de música que acabou sucumbindo para o vício e, apesar de toda a ajuda da família e dos amigos, não conseguiu resistir e veio a falecer.

Tentando ajudar muitas dessas pessoas e até mesmo assistindo o início do processo de dependência que acabou aprisionando cada uma delas em seus tentáculos, eu acabei me imiscuindo em suas vidas e percebendo algumas verdades que, ou as pessoas que discutem o assunto não perceberam ou se perceberam, procuram ocultar, por um motivo ou outro.

O fato é que, na verdade, todos eles, segundo suas próprias palavras, começaram seguindo o exemplo dos pais que possuíam bebidas em casa ao alcance de todos e tinham o costume de beber, eventual ou diariamente. Ou seja, deixavam claro que a bebida de álcool é uma coisa boa de se curtir em família. Muitos deles afirmavam terem recebido diretamente dos pais ou de algum familiar, o copo que continha o primeiro gole. Com ele, o primeiro delírio e depois os muitos outros goles na busca de se tentar eternizar aquela sensação fugidia de bem-estar. Posteriormente, ao perceberem que o álcool, por maior que fosse a quantidade ingerida, não lhes causava mais o efeito desejado, eles acabavam buscando-o em drogas mais fortes. Dificilmente algum deles diz ter sido a maconha, considerada pelo viciado muito fraca quando comparada ao álcool. Eles iam diretamente para a cocaína, substância que de acordo com seus próprios depoimentos, tinha uma ?paulada? um pouco mais poderosa do que aquela que pode oferecer o ácido etílico.

Pois a conclusão que eu quero chegar é que não é totalmente verdadeira essa assertiva de que a maconha é a porta de entrada para as outras drogas. Pode até ser que isso venha a ocorrer mas na realidade, o primeiro passo para o vício que irá conduzir a pessoa ao consumo de substancias cada vez mais fortes, é justamente aquele copo de cerveja ou de vinho que alguém um dia oferece a uma criança ou um adolescente como se fosse a coisa mais natural do mundo. É nesse momento que ela vai ter aquela falsa sensação de liberdade cujo resgate muitas vezes passa a ser o seu objetivo único de vida.

Agora, cabe aqui a pergunta: quem é que vai ter a coragem de apontar o verdadeiro responsável que é justamente o álcool? Quem irá querer comprar briga com as poderosas indústrias da bebida alcoólica e bater de frente com uma conduta que é milenar, cultural e socialmente aceita desde tempos imemoriais? Ninguém é claro. Até mesmo porque isso, em muitos casos, implicará em assumir as próprias culpas.

Então, enquanto isso não acontece, vamos continuar nos iludindo e repetindo aquela velha e surrada frase: ?a maconha é a porta de entrada para as drogas mais fortes?.

Jorge André Irion Jobim. Advogado de Santa Maria, RS

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