No final de março, ocorreu em Riad, Arábia Saudita, uma reunião com os chefes de Estado e de governo dos países membros da Liga Árabe, com foco na paz com Israel. O plano, proposto pelo monarca saudita e aprovado pela primeira vez na cúpula árabe de 2002, prevê a normalização das relações de todos os países árabes com Israel em troca da retirada israelense dos territórios ocupados na Guerra dos Seis Dias, em 1967, além da criação de um Estado palestino. Este, por sua vez, teria que reconhecer o Estado de Israel e renunciar à violência.
Os líderes mundiais dão grande importância à criação da Palestina, mas sequer se dão conta de que tal Estado já existe, de fato, desde 2005. Nesse ano teve início o plano de retirada dos assentamentos judaicos (e forças militares) de Gaza e parte da Cisjordânia, territórios ocupados por Israel na Guerra dos Seis Dias. Estabeleceu-se assim o primeiro Estado palestino completamente independente da história, não reconhecido pelos líderes mundiais.
Neste Estado há dois partidos políticos principais, ambos com braços armados: o Fatah (moderado, secular) e o Hamas (extremista). No poder desde as eleições de 2006, o Hamas (apoiado por Síria e Irã) é considerado um grupo terrorista por norte-americanos e israelenses. Como conseqüência da vitória nas urnas, teve início o boicote econômico internacional à Palestina, que permanece até hoje, apesar do governo de coalizão com o Fatah, inaugurado em fevereiro.
Desde então, ambos fazem parte do mesmo gabinete de unidade nacional, mas isso não os impede de continuar brigando. As divisões ocorrem tanto no Hamas, quanto no Fatah. A briga entre facções resulta em dezenas de mortes e em uma situação próxima à guerra civil, especialmente em Gaza.
O presidente da Autoridade Nacional Palestina (ANP) e líder do Fatah, Mahmoud Abbas, é considerado o grande expoente dos que querem chegar a um acordo de paz com Israel, mas nada poderá fazer enquanto não tiver autoridade sobre o governo. Já o líder do Hamas, Ismail Haniyeh, é contra o reconhecimento do Estado israelense e foi recentemente taxado de "terrorista" pelo premiê israelense, Ehud Olmert. A posição atual do governo de Israel é o isolamento de Haniyeh e do governo palestino, devido à recusa do grupo islâmico em reconhecer Israel e renunciar à violência.
O processo de paz entre Israel e Palestina é uma das chaves principais para tentar criar um mínimo de estabilidade na região. Há um plano de paz (longe de ser perfeito, mas é bom); há diálogo entre Olmert e Abbas (o que já é alguma coisa); e há uma boa vontade dos países árabes (que parecem assumir uma postura mais responsável).
Infelizmente, há também inúmeras pendências - como os refugiados palestinos - e o impasse continua, com ambos os lados fazendo restrições ao cumprimento do acordo. Sessenta anos já se passaram desde a partilha da região (uma bobagem em termos históricos), mas o problema permanece sem solução. A paz somente se apresentará como duradoura quando o diálogo evoluir para o reconhecimento do direito pleno de palestinos e israelenses, sem que o pleno direito de um signifique a aniquilação dos anseios nacionais do outro.
A maior parte desses povos quer a paz. Os governos desejam a paz. Mas diante de tantos anos de conflito, fica a pergunta: será que eles sabem o que é isso?
Maria Fernanda Hosken de Souza é advogada, pós-graduada em Direito Internacional.