Rio de Janeiro, 27 de Outubro de 2026

A passagem de um sábio

Segunda, 05 de Setembro de 2011 às 08:13, por: CdB

Seme dissessem anos atrás, quando eu era jovem estudante de teologia, que um diairia me encontrar frente a frente com Jürgen Moltmann, certamente nãoacreditaria. Ou ficaria tão deslumbrada e ansiosa que não conseguiria pensar emoutra coisa. O pensamento do teólogo luterano Moltmann marcou profundamenteminha maneira de fazer teologia. E foi objeto de vários cursos de pós-graduaçãoque dei a meus alunos na PUC do Rio, onde leciono.

Sendoalgo assim como um guru ou uma referência maior na teologia cristãcontemporânea, necessariamente era colocado em posição distante, não facilmenteatingível por meu desejo de aprofundar as álgidas questões que sua teologiarefletia. Jamais poderia imaginar-me conversando com Moltmann frente a frente,ou trocando idéias com ele.

E,no entanto, isto aconteceu. Convidado para um simpósio internacional organizadopelo Departamento de Teologia da PUC-Rio, Moltmann aceitou o convite. E veio.Alegre e prontamente, do alto de seus 85 anos de idade. E também fiel ao seuafetivo compromisso com a América Latina. Durante muitos anos o teólogo deHamburgo foi constante e periodicamente à Nicarágua. E não é a primeira vez quevem ao Brasil.

JürgenMoltmann é um dos principais teólogos cristãos contemporâneos. Ele nasceu em1926 em Hamburgo, Alemanha, dentro da Igreja luterana. Lutou na II GuerraMundial, foi feito prisioneiro pelos ingleses e levado para um campo deconcentração na Inglaterra. De 1945 a1948, esteve prisioneiro dos aliados naBélgica e na Inglaterra. Foi durante a situação dolorosa da prisão que suavocação teológica despertou. Esse homem formado em Matemática sentiu-sefortemente chamado a refletir sobre o sentido da vocação cristã. Voltando àAlemanha, em 1948, foi estudar teologia. A partir de 1952, atuou como pastor daIgreja Luterana. Desde 1967, foi professor de teologia sistemática naUniversidade de Tubinga, na qual ainda ensina.

Ouvindo-onarrar sua trajetória e falar das questões que o apaixonaram e se tornaram onascedouro de sua Teologia, Moltmann toca nas fibras mais profundas da condiçãohumana: o sofrimento inocente, a violência que vitima, o envolvimento de Deuscom o sofrimento absurdo e inútil da humanidade, a necessidade de falar desseDeus a partir da cruz de Jesus e de seu mistério pascal.

Aoouvi-lo falar, lembrei-me da primeira vez em que li seu livro "O DeusCrucificado”. Levou-me às lágrimas e fez-me bater o coração. Impressionou-menão apenas pelo rigor e clareza da reflexão, como também pela paixão que marcao discurso e que testemunha a fé profunda de seu autor. Eu o li e reli durantemuito tempo, dei aulas sobre ele e, a partir dele, escrevi textos tomando-ocomo base.

Aoir a El Salvador no congresso de celebração dos 30 anos do martírio deMonsenhor Romero, o livro de Moltmann tocou-me desde outro ângulo. O coraçãosaltou no peito quando o vi manchado de sangue, exposto no museu da UCA queguarda a memória dos seis jesuítas assassinados em 1989. Um deles lia "O DeusCrucificado” no momento em que foi barbaramente torturado e assassinado.Olhando o livro exposto na vitrine, vi o sangue do mártir misturar-se àreflexão sobre a Paixão de Deus brotada da teologia moltmaniana.

Perguntadosobre o foco de sua teologia hoje, Moltmann explicou estar voltando aos temascandentes do início de sua trajetória: a paixão de Deus e do mundo, a dordivina como sentido para a dor humana. Olhando-o e ouvindo-o, senti-me diantede um sábio. Ali estava um homem que falava não a partir do intelecto, mas dasabedoria. Sabedoria cuja fonte é o Espírito da vida que sopra onde quer esuscita luz e claridade sobre os dramas inexplicáveis da condição humana,ungindo-a com um Sentido maior que a tudo configura.

Ouvindo-oe vendo-o sentia-se a presença do sábio, aquele que conhece o seu Deus e cujoúnico desejo é crescer nesse conhecimento, inseparável do amor. Em meu coração,erguia-se uma silenciosa oração de louvor Àquele que suscitou no seio dacomunidade eclesial uma testemunha da estatura de Jürgen Moltmann.

[Autorade "Simone Weil - A força e a fraqueza do amor” (Ed. Rocco).
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