É difícil escrever sobre os efeitos de uma eventual derrota de Lula quando as efêmeras 48 horas que passei no Brasil recentemente me deixaram uma sensação mais no coração do que no cérebro: é quase impossível que Lula perca. É o que dizem as pesquisas de todos os pesquisadores - que não conheço - mas todos os meus amigos - em quem confio - me dizem que elas são confiáveis. Também me diz o mesmo o ódio com que colunistas e formadores de opinião sonham em minar o disputado caminho que ele começará a percorrer num segundo mandato.
Mas é claro que ninguém pode pensar que 48 horas sejam suficientes para que se adivinhem os ingredientes do festim que se cozinha para este domingo 1* de outubro, muito menos que se adivinhe quem de fato, vai saboreá-lo. Assim, o melhor é deixar festejos para a segunda-feira, e imaginar por um momento as conseqüências de uma vitória da direita. Em meados de 2002, desde a torre de observação distante em Buenos Aires, parecia restar pouco espaço para a esperança. A crise neoliberal arrasava o mundo, a partir da mão da nova Idade Média desatada pelo ataque às torres de Nova Iorque. Diante do fracasso cada vez mais evidente das receitas do pensamento único, santificadas no Consenso de Washington, só se erguiam castelos discursivos de boas intenções, quase sem perspectivas de concretude política. NO fim deste ano se travou no Brasil a primeira batalha com possibilidades de abrir uma fenda na parede. Lula ganhou e já em janeiro, com a chegada do PT ao governo, as belas palavras começaram a sofrer o desafio da realidade.
O impacto foi percebido no mundo inteiro, comovido pela brutalidade das cruzadas neocoloniais, mas na América do Sul ele foi maior. Em seguida um desconhecido governador peronista, de uma província sulista insignificante, chegou à presidência Argentina, decidido a compartilhar esse desafio. Num dominó apaixonante, foram caindo Uruguai, Paraguai e a Bolívia. Cada um a seu modo, Chile e Venezuela esperavam as mudanças, e assim, enquanto alguns países europeus também se adaptavam aos novos tempos, a América do Sul se dava o luxo de começar a pensar em outro caminho.
Seria algo estúpido negar que esta é a principal conquista: a possibilidade de discutir novos rumos. Mas mais estúpido ainda seria não compreender a importância dessa conquista. Faz quatro anos que a América Latina balbucia um idioma diferente. Conjuga, sem muito êxito por ora, o verbo distribuir e trata de encurtar o alcance da palavra fome. Não é pouco, levando em conta que antes o vocabulário começava e terminava nos substantivos "dívida" e "lucro financeiro". Aprender a dominar a nova língua levará tempo, e nada garante o sucesso na aprendizagem. Mas uma coisa é certa. Se Lula perde, aquela frincha na parede vai se fechar, e da pior maneira possível.
O eixo Argentina - Brasil, como coluna vertebral do Mercosul, se dissolverá rapidamente, assim como os tímidos apoios mútuos à travessia de Evo Morales. E Chávez ficará jogado à própria sorte, longe do contexto onde suas propostas bolivarianas têm sentido. O Uruguai e o Paraguai se voltarão decididamente para o norte, e o Chile nem vai perder tempo em olhar para o lado. Escurecido o horizonte comum, um país depois do outro verá a possibilidade da direita voltar a impor o velho idioma do pensamento único.
Para nossa sorte - nós, os que preferimos o balbucio das mudanças às certezas do status quo, tudo indica que isso não vai acontecer. A maioria dos brasileiros parece acreditar em que não só a América Latina perderia com a derrota de Lula. Só resta esperar... com uma vela acesa ao deus das pesquisas.
Ernesto Tiffenberg é jornalista do Página 12, de Buenos Aires.