Rio de Janeiro, 05 de Abril de 2026

A natureza da disputa: projeto contra projeto

Por Flávio Aguiar - Nas eleições de outubro, estarão em disputa dois projetos opostos de administração pública: um mantendo a tradição de favorecer minorias privilegiadas e a exclusão social e política, e outro construtor de uma perspectiva de integração social e de investimentos pró-maiorias. (Leia Mais)

Quarta, 12 de Julho de 2006 às 09:32, por: CdB

Esquerdas e direitas têm diferentes leituras da natureza do que está em disputa nas eleições de outubro.

As direitas vêm querendo mostrar estas eleições como uma disputa entre os menos informados e menos instruídos contra os mais informados e mais instruídos. Aqueles votariam em Lula, estes em Alckmin. Entre os dois, alguns desiludidos com o PT e Lula prefeririam Heloísa Helena e muito poucos Cristovam Buarque.

À esquerda, prosperam visões da eleição como uma disputa cujo eixo é a luta de classes: ricos x pobres, no caso de eleitores petistas ou próximos; verdadeiros esquerdistas x traidores, entre muitos eleitores do PSOL; nas opções por Buarque ainda não consegui discernir com clareza seu eixo.

As visões à direita deixam escapar volta e meia seu campo de preconceitos. Democracia é coisa para iluminados, para bem dotados financeira e quanto acessos a serviços, ainda que privatizados. O povo não tem capacidade para fazer opções; no máximo, intui temas genéricos sobre sua condição, o que o torna presa fácil para "populismos", para "demagogias", para "assistencialismos", "clientelismos", termos com que sistematicamente desqualifica de modo indiscriminado todas as políticas populares.

As direitas hoje não têm como explicitar seu projeto de governo. Quando o fazem, perdem pontos. Não conseguem se libertar de sua adesão acrítica aos modelos neoliberais, triunfantes. Nesse modelo, propaganderam um suposto "Estado mínimo", na verdade "máximo". Mas máximo não no sentido de promover direitos e integração; ao contrário, máximo no sentido de pulverizar direitos, triturar sonhos, administrar o caos da desintegração social - algo cuja metáfora mais pungente hoje é o que acontece no sistema prisional de São Paulo, ou com a segurança pública neste Estado, onde grassa uma guerra suja entre os cavaleiros templários da ordem desordenada de um lado e organizações criminosas do outro, com a população e a maioria dos policiais espremidos no meio. Às direitas resta o caminho atrabiliário dos ataques pessoais, das desqualificações moralistas (porque distantes do objetivo maior de construir uma ética política que democratize de vez a gestão das instituições públicas). No limite resta o caminho da desqualificação do país inteiro: aqui nada dá certo; em se plantando, nada dá. Bom mesmo é o "primeiro mundo" de fantasia em que imaginam poder viver, como se ele de fato existisse, e não estivesse ele também cercado pelas coroas de exclusão das periferias pelo mundo à fora. No fundo, o mundo proposto pelas direitas assemelha-se àquelas cidadezinhas medievais que a gente construía com os bloquinhos em tijolinhos vermelhos, quando criança. Um fosso intransponível separa esse mundinho do oceano de turbulência e desgraça a que o resto do mundo fica relegado, e sem ponte levadiça. Outra metáfora cruel desse mundinho prepotente é o cortejo de anúncios de condomínios fechados, num feio estilo neoclássico, que pululam nos grandes jornais, anunciando as delícias... do isolamento.

Mas tenho minhas dúvidas de que nessas eleições o eixo das distinções seja de fato uma luta de classes, ainda que a grande maioria dos pobres tenda, até o momento, a votar em Lula, enquanto uma significativa maioria dos ricos tenda a votar em Alckmin. Um dos índices do papel relativo da luta de classes nas eleições é a constituição do contingente que até agora tende a votar na candidata que se apresenta como a mais radical à esquerda, a senadora Heloísa Helena. Não o constitui uma franja considerável de mais pobres: pelo contrário, são setores em geral de classe média e funcionalismo público razoavelmente aquinhoado que pensa protestar dessa forma contra o que consideram o envolvimento do PT com as tradicionais manobras da política brasileira, inclusive casos de corrupção. Não raro confundem retórica moralista com opção revolucionária ou reformista, o que, na verdade, termina por colocá-los mais debaixo da sombrinha das posições de direita no presente e

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