Uma foto do ex-ministro Olívio Dutra tomando chimarrão, espremido na apertada sala de seu apartamento, me comoveu. O missioneiro, que mandou e desmandou em orçamentos altíssimos, não mexeu em nada que não lhe pertencesse. O cofre nunca lhe caiu nos pés.
Dia 16, vi uma foto do ex-governador e ex-ministro Olívio Dutra, tomando chimarrão, espremido na apertada sala de sua residência, na zona norte da cidade. Até aí nada de mais, não fosse o ex-bancário ter ocupado a chefia do Executivo gaúcho e o ministério das Cidades, durante mais de dois anos do governo Lula. Olívio não é mais governador e muito menos ministro, mas continua o mesmo sujeito simples de antes. O missioneiro, que mandou e desmandou em orçamentos altíssimos, não mexeu em nada que não lhe pertencesse. O cofre nunca lhe caiu nos pés. Terminadas as suas tarefas, Olívio voltava para o acanhado apartamento que um dia conseguiu comprar com os parcos salários que recebia como funcionário do Banrisul.
Olívio Dutra é, pois, um homem honesto!
Nem sei porque estou escrevendo sobre isso, porque eu participo do princípio que honestidade não é virtude. Honestidade é inerente ao cidadão. Não ser honesto é um grave defeito de caráter mas, honestidade, não é virtude.
Mas virtude ou não, a verdade é que Olívio Dutra é um homem intrinsecamente honesto. A foto me comoveu. A foto me fez engolir em seco. Daí pensei: como pode o presidente Lula, cercado de más companhias e de escândalos por todos os lados, ter afastado de seu convívio a figura maior e republicana de Olívio Dutra?
Que ironia! Entendo as necessidades que levaram o presidente a fazer uma reforma ministerial. No meio da lama e sem apoio parlamentar, Lula precisou oferecer cabeças a determinados partidos para se fortalecer no Congresso mas, daí, oferecer a cabeça de Olívio Dutra?
Vamos pensar juntos: tendo a sua volta mais de uma dúzia de personalidades abaixo de qualquer suspeita, porque Lula foi escolher um homem probo, íntegro, digno, para defenestrar? Que razões levaram Lula a pensar tão alienadamente. É certo que o presidente alega desconhecer os desvarios que ocorreram diante do seu nariz. Lula diz que não sabia de nada do que estava acontecendo à sua volta mas, o Olívio... O Olivio, não! O Olívio ele conhece desde os primeiros movimentos ousados do sindicalismo. Lula, por várias vezes, privou da hospitalidade de Olívio.
O apartamento da avenida Assis Brasil hospedou o " companheiro de lutas". Dona Judite, mulher simples, do lar, muito se esmerou na cozinha para fazer uma boa comidinha para os dois que chegavam cansados das caminhadas e das pregações ideológicas.
Hoje tudo mudou. Lula se isola na Granja do Torto e Olívio reflete, entre um e outro mate, na pequena sala de seu apartamento. Agora, os dois frequentam dois mundos diferentes apesar de enfrentarem a mesma agonia.
Lula lá, na solidão do Poder e Olívio aqui, a pensar na retomada. O perdão que Lula pediu, publicamente, Olívio concedeu. O velho missioneiro perdoou mas, o fato ficou na memória. Ele tenta, na sua simplicidade, e com a fala pausada, não mostrar mágoa com o que aconteceu. Mas, sua pureza, não é capaz de esconder a profunda marca do abandono.
Pelo que se vê, num governo inflado de escândalos. Olívio poderia ser novamente chamado, para liderar pelo Brasil, uma cruzada pela moralidade para que, enfim, o Estado volte a se reencontrar com a Nação.
Adão Oliveira é jornalista, colunista do Jornal do Comércio, do Rio Grande do Sul.