O mais recente relatório da Organização das Nações Unidas sobre o Índice de Desenvolvimento Humano, divulgado há pouco mais de duas semanas, mostra que o Brasil, apesar dos pesares, continua a mudar de cara. Está ainda entre as 10 nações mais desiguais do mundo, mas melhorou. Desde que a ONU criou o IDH, em 1975, o país subiu exatos 16 andares. Na primeira edição, apareceu em 81° lugar, ao lado da Nicarágua, e apenas um pouco melhor do que alguns países africanos pobres, como Botsuana e Namíbia. Agora, chegou à 65ª posição. Um bom salto, mas precisamos de mais. Basta dizer que, na América Latina, ainda estamos bem abaixo de alguns vizinhos, como o Uruguai, Chile e Argentina.
No documento da ONU, que mostra as condições de vida de 175 países dos cinco continentes, uma notícia é importante destacar. O documento revela que, de 2000 a 2001, a expectativa de vida do brasileiro passou de 67,6 para 67,8 anos e a taxa de matrículas escolares, entre os 7 e os 14 anos, subiu de 92,9% para 95,1%. Graças a avanços como esses é que o Brasil subiu no ranking. Agora está quase ao lado da Rússia e já acima da China.
A leitura do relatório mostra-nos, principalmente, que o país continua a depender, e muito, de iniciativas estratégicas - de longo e médio prazos -, que o façam voltar a crescer. Mas, enquanto o governo, com a parceria de empresários criativos e patriotas, dedica-se a descobrir quais os melhores caminhos a percorrer, é preciso também dedicação total aos problemas urgentes. E o combate à fome é um deles. O principal. Por isso, toda força ao Fome Zero.
O programa, que algumas vozes de oposição ao governo insistem em classificar de demagógico, na verdade só merece aplausos. Aliás, a própria ONU, no seu relatório sobre o IDH, não lhe poupa elogios. Mostra-o como uma das mais importantes iniciativas mundiais de combate à pobreza - uma das oito metas que a organização pretende ver cumpridas até 2015, ao lado da redução da mortalidade infantil e da conquista de melhor qualidade no ensino básico. ''O incentivo ao cumprimento das metas pode ocorrer também em plataformas políticas, como na campanha de combate à fome do presidente Luiz Inácio Lula da Silva'', diz o texto da ONU.
De fato, pela primeira vez na história do Brasil, um programa com esse objetivo inova ao aproximar pessoas que têm recursos (empresários, sobretudo) da grande parcela da população que precisa de ajuda. Milhares e milhares de famílias, nas mais longínquas regiões do país e também na periferia dos grandes centros urbanos. O Fome Zero, quem sabe, poderá, inclusive, estimular muita criança hoje marginalizada a encontrar, ou reencontrar, o caminho da escola.
O Fome Zero, pelo que sabemos, está hoje presente em apenas 194 cidades do semi-árido nordestino e do Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais. É muito pouco. Esperamos que, com o apoio de uma parcela maior do empresariado e também de outros setores da sociedade - como as universidades, por exemplo -, o programa viaje mais. A ONG Apoio Fome Zero, que tem na presidência de honra a primeira-dama Marisa Letícia Lula da Silva, é a melhor porta para novas contribuições.
Mãos à obra, senhoras e senhores.
Fernando M. de Carvalho Garnero é diretor-geral do Fórum das Américas.
Artigo publicado no Jornal do Brasil