Hesitei diante de que título dar a esta Carta Ácida. No sábado pensava em chamá-la de "Vida e morte Severina", invertendo os termos do poema de João Cabral de Melo Neto. Tinha diante de mim a verdadeira sanha com que políticos do PSDB e do PFL queriam o duplo mandato de Severino Cavalcanti, o de deputado e, mais do que todo o resto, o de presidente da Câmara, terceiro na linha sucessória do presidente. Não se tratava apenas de fazer justiça perante um crime (no caso, de extorsão), ou de exigir a investigação de uma suspeita de crime (que ainda não está provado). Não: a visível sanha de dentes arreganhados mostrava o desejo de pavimentar a possibilidade do impedimento do presidente e do vice, ou simplesmente a de chegar mais perto do controle sobre a mesa da casa, já que o imprevisível Severino fazia e dizia o que lhe dava na telha, e não o que convinha ao telhado dos partidos - PSDB e PFL - que inventaram sua eleição para impedir o PT de conseguir a presidência da Câmara.
Nesta versão da carta haveria um pouco de filosofia sobre a volubilidade do destino humano, de como o acuado Severino poderia estar pensando, como o Jó da Bíblia, "o Senhor mo deu, o Senhor mo vai tomar", onde "o Senhor" aqui não seria Javé, mas o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que aquiesceu com sua eleição e que agora, por força das circunstâncias, aquiesceria com seu defenestramento. Ou quem sabe o senador Jorge Bornhausen, que, segundo suas próprias palavras, gosta de se ver livre da "raça" dos que o desagradam. Talvez eu citasse Macbeth e as bruxas, para falar do enganoso das promessas vãs, e tirasse lições de proveito para o nosso combalido PT, suas táticas, alianças, práticas financeiras etc.
No domingo (11), o título de minha carta já mudara. Tinha diante de mim as revistas semanais, algumas delas estampando vitoriosamente coisas como "Bye, bye, Severino!", ecoando mais a sanha dos oposicionistas excitados do que algum princípio de justiça. Vira e ouvira as entrevistas iradas dizendo que Severino não tinha mais condições de presidir a Câmara, etc. Afirmações ousadas, dizendo que as oposições se recusariam a participar da reunião em que vai entrar em questão o mandato de Roberto Jefferson, caso Severino a presidisse. Discussões mais quentes ainda sobre se o PT deveria indicar o novo presidente ou não, consagrando a ruptura com a prática republicana de ser o partido com maior número de deputados que o indica. E etc.
Daí veio ao ar a entrevista coletiva de Severino, com aquele indicador quilométrico em riste, mandando ver o verbo, deitando e rolando por cima e com os jornalistas. Ressalvadas as proporções e a qualificação dos envolvidos, lembrei-me do caso das revistas semanais brasileiras saudando euforicamente a queda de Hugo Chávez na Venezuela, enquanto ele retornava triunfalmente ao palácio presidencial nos ombros do povo e dos militares legalistas. Todo mundo, inclusive as revistas, depusera Severino. Só faltara combinar com ele. Meu artigo passou a se chamar "A hora Severina". Talvez eu citasse Júlio César, do mesmo autor de Macbeth, e a desilusão de Brutus ao perceber que o assassinato de seu protetor nada mais fizera do que abrir caminho para a ambição de Marco Antônio.
Na segunda-feira (12) à noite minha carta novamente mudou de título, e desta vez de rumo. À noite estive na reunião aberta de refundação do PT, no Sindicato dos Engenheiros do Estado de São Paulo. Aqui na página da Carta Maior há quem relate melhor do que eu o que foi a reunião e seu significado. De dentro das cinzas da tragédia petista, emergiu um novo sopro de esperança. Dizê-lo épico ainda será demasiado; dizê-lo a luz no fim do túnel também. Respeitando quem lá preferiu não estar, e reconhecendo as inúmeras diferenças entre os que lá estiveram, deu para perceber que, como ressaltou Marilena Chauí na entrevista posterior para a TV Carta Maior, que "nós viemos para ficar", e que por isso nos odeiam tanto, por isso a sanha do mass