Rio de Janeiro, 11 de Outubro de 2026

A limpeza de Dilma e o que se esconde sob o tapete

Quinta, 11 de Agosto de 2011 às 19:54, por: CdB

A mídia comercial geralmente não tem partido. É neutra,dizem seus donos. Isso é uma meia verdade. Na química, neutro é aquilo que nãoé ácido nem base e na física diz-se dos corpos que não apresentam eletricidade.Na política, neutro é quem não toma partido entre as forças beligerantes.Então, nesse contexto, a mídia se arroga o direito de dizer que não tomapartido, apenas mostrando o que acontece. Bom, pode-se dizer que os veículos decomunicação brasileiros não são ácidos, nem são base; tampouco apresentameletricidade; mas, que tomam partido diante das forças beligerantes, ah, láisso tomam. No geral, a mídia está sempre do lado do poder. Não importa se é dedireita ou de esquerda. A pessoa sentou na cadeira presidencial e, num repente,todos os meios já se domesticam.

No caso do Brasil houve uma simbiose. Quando Luis Inácioelegeu-se presidente advogando a etiqueta de "homem da esquerda”, houve certorumor e desconforto. Mas, seu primeiro ato como presidente foi ceder umaentrevista exclusiva para a maior rede do país, a Globo. Estava selada a paz.Depois, as verbas publicitárias foram generosamente distribuídas e ‘tudo ficoucomo dantes no quartel de Abrantes’. Durante os oito anos em que governou LuisInácio, a mídia se comportou direitinho.

Na troca de governo para Dilma Rousseff as coisas seguiramiguais. Durante a campanha pode-se sentir uma espécie de recaída, pois ospoderosos têm hábitos alimentares que podem ser escondidos, mas nuncasuperados. E, os espectros do Serra e do PSDB acirraram as glândulas salivaresdas grandes redes. Mas, as urnas deram vitória à sucessora de Luis Inácio e osdonos das palavras logo voltaram ao ponto anterior, de paparicação do rei,agora, no caso, rainha.

Passado um semestre do governo da nova presidenta, seguimosvendo a mídia fazer seu papel "neutral”. Diante da crise de corrupçãogeneralizada dentro do governo, lá estão os âncoras das grandes redes a louvar acapacidade de "faxina” de Dilma Rousseff. A mulher não tem medo de assumir seuposto de mando e está conseguindo garantir a ética e a retidão no uso da coisapública. Roubou, está fora. Não há mole para a corrupção. Olhando asreportagens a imagem de Dilma é a de uma Diana Caçadora, no caso, doscorruptos. Já vimos esse filme.

Para os espectadores que consomem as notícias do JornalNacional, do Datena ou do jornal da Record, a impressão é de que este é o temamais importante a ser tratado no país. A faxina nos transportes, a faxina nosministérios, a força da presidenta em livrar a nação dos ladrões. Cada diaaprece um caso diferente de corrupção pequena, média ou grande. É a agenda.Mas, como bem lembra o professor de Economia da UFSC, Nildo Ouriques, a corrupçãotem três níveis: o dos pequenos ladrões, o das privatizações e o do sistemafinanceiro. "Dilma está atacando apenas o primeiro nível, o que é importante.Mas precisamos fazer uma devassa no processo das privatizações, no qual a Valedo Rio Doce, por exemplo, no mesmo ano em que foi vendida por três bilhões,teve um lucro de cinco bilhões. E ainda tem o sistema financeiro, com lucrosexorbitantes. Isso precisa também ser investigado e sanado”.

O outro lado da moeda

Enquanto louva-se a "limpeza” presidencial na região nortedo país, todo o dia morre alguém, lutando contra a avançada dos latifundiáriossobre as terras indígenas. Lutam os ribeirinhos e povos originários contra agigante barragem que vai destruir a vida de quase todo o Xingu. Uma barragemque já se mostrou desnecessária diante das novas tecnologias energéticas, masque segue a passos largos atendendo aos interesses das grandes empreiteiras edas multinacionais.

Nos supermercados os preços disparam e os salários dasgentes empobrecidas já não são suficientes para uma vida digna. A inflaçãoavança. Imagine quem não tem salário e vive de bico. Nisso, o programa do Gugué pródigo, mostrando a desgraça da vida dos imigrantes nordestinos em SãoPaulo, que rezam a deus para que o apresentador sorteie sua carta e eles possamvoltar para casa. É, a mídia também temsuas contradições, como diria o grande Adelmo Genro.

Entre os trabalhadores a situação é mais grave. Com omovimento social e os sindicatos praticamente destruídos durante o governo deLuis Inácio, domesticados pela cooptação, pela "mesa de negociação permanente”,pelos cargos e pela divisão, o governo avança no aniquilamento dos direitostrabalhistas, sem que haja grandes protestos.

No ano passado, durante a greve dos trabalhadores da JustiçaFederal, Luis Inácio apelou para o Supremo Tribunal de Justiça, pedindoilegalidade da greve, criminalizando a Federação dos Trabalhadores, a Fenajufe.A ação governamental foi um golpe tremendo no direito à greve, e acaboudesestruturando o movimento, uma vez que o STJ deferiu uma liminar exigindo que60% voltassem ao trabalho sob pena de multa, até que fosse julgado o mérito. Em2011 saiu o acórdão que julgou a questão dizendo que o STJ não tinha condiçõesde julgar contra a Fenajufe, porque o âmbito da greve deveria ser restrito àsbases dos sindicatos e não à Federação, que seria apenas uma subsidiária.

Agora, durante a greve dos trabalhadores das UniversidadesFederais, a presidenta Dilma usa do mesmo expediente e manda a Advocacia Geralda União entrar na Justiça contra os trabalhadores técnico-administrativos emgreve, também esperando pela decretação da ilegalidade do movimento. Jáescolados pelo caso da Fenajufe, a ação não é só contra a Fasubra (federaçãoque representa os técnico-administrativos), mas também contra cada sindicatolocal. Isso significa que a greve pode ser julgada nos mais diversos tribunaisregionais. Enquanto isso, o movimento paredista segue caminhando para mais de60 dias, sem que o governo aceite estabelecer uma mesa de negociação real. É amais alta expressão do autoritarismo.

Enfim, toda a austeridade e retidão que a mídia temincensado à exaustão não colocam em xeque, por exemplo, a distribuição dedinheiro público para as obras que envolvem a Copa do Mundo de 2014. Osestádios gigantes que serão construídos com dinheiro do povo servirão paraquem? Serão colocados à disposição das gentes brasileiras para a prática deesportes ou servirão para engordar a conta de cartolas do mesmo naipe deRicardo Teixeira? Alguém tem algumadúvida quanto às respostas?

A corrupção é uma praga difícil de estancar, e justamentepor isso não deveria ficar só no primeiro nível, como aponta Ouriques. Umaverdadeira limpeza precisa chegar também às multinacionais, às grandes empresasprestadoras de serviço ao Estado, aos crimes de lesa pátria cometidos duranteas privatizações e aos embusteiros cotidianos que conformam o sistemafinanceiro nacional. Sem isso, é insuficiente. E, no caso da mídia, o maisinteressante seria que praticasse o verdadeiro jornalismo em vez de ficarposando de vestal pudica e neutral.

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