O PT gaúcho é bom de briga. Assim são conhecidos seus grandes quadros nacionais - alguns ocupando ministérios importantes no governo Lula, inclusive -, e assim é conhecida a experiência de militância do partido na cidade que governa há dezesseis anos. A expressão "bom de briga" tem pelo menos dois sentidos possíveis, muito diferentes ou mesmo opostos. O primeiro, é o sentido ordinário, de desavença; o segundo, neste caso, de ter uma militância aguerrida, que comporta paixão na política. É claro que nem mesmo o próprio partido escapa de fazer confusão entre ambas as possibilidades; confusão, aliás, que caminha de mãos dadas, ora com um diagnóstico problemático da noção de poder, ora com ambições mundanas demais e históricas de menos. A briga, num partido que se organiza de maneira inédita na história da esquerda mundial, em tendências, funciona como uma espécie de fantasma da divisão do partido. Como fantasma, precisa e merece uma interpretação, tanto mais agora, quando a expressão "fogo amigo" parece ser a única categoria sob a qual a grande mídia noticia o PT e o governo Lula.
Talvez seja o caso de mostrar o que ocorreu no dia 16 de maio, em Porto Alegre, quando o partido se reuniu para ratificar a escolha da deputada Maria do Rosário como candidata à vice, na chapa encabeçada por Raul Pont para a disputa do quinto mandato do partido, na capital. Pois o que se viu, ali, foi a consumação de uma possibilidade muito estranha às câmeras, lentes e textos dos grandes jornais. As brigas dentro do PT sempre mereceram muito destaque da imprensa. A unidade, nunca. Tanto é assim que o maior e histórico veículo opositor contumaz do partido, no Rio Grande do Sul, resolveu não noticiar o que ocorreu, optando por mentir sobre o encontro. O jornal Zero Hora disse que as criticas à política econômica do governo Lula pautaram a reunião. "Copiando e colando" frases, a mídia reproduz a si mesma, para não dizer que não falou do que de fato se passou.
Preconceito e verdade
Fossem as notícias meras reportagens, e não "plantações" claramente "editorializadas" dos jornais, teriam de dizer algo que lhes é interdito. Mas isso não é tão simples. Não que a mídia não exista e esteja aí, tampouco que não seja necessário e urgente lutar pelo pluralismo da informação. Mas isso não se assemelha, absolutamente, a uma oposição tacanha entre verdade e mentira, descrição e manipulação, tampouco ao relativismo de que a intencionalidade dos editoriais, de direita e esquerda, sejam - como se diz, cinicamente - defesas legítimas de interesses em conflito. O preconceito está mais distante da verdade que a ignorância, disse certa feita um poderoso homem da esquerda.
De onde vem o preconceito, neste caso? E por que razão esse preconceito é hoje um problema sério no PT, inclusive? Uma boa forma de investigar isso é dispondo de uma hipótese diversa daquilo que de fato se passou: e se Maria do Rosário (deputada federal mais votada do partido, no RS), tivesse brigado com Raul? E se Raul tivesse brigado com Maria? Qual seria a notícia? Algo teria sido dito sobre algum debate de mérito que, por acaso, tivesse efetivamente sido feito no interior do partido?
A glória ou o gozo que uma circunstância dessa ofereceria à grande mídia tem um sentido mais profundo e infelizmente bastante ignorado, inclusive, por muita gente dentro do PT, hoje. O gozo com as brigas é o gozo que conta com uma violenta e implícita acusação. Tudo se passa, muitas vezes, como se o PT fosse um grupo de gente que só quer sofrer, que só quer se opor, que não tem positividade, satisfação, alegria e que não sabe, portanto, o que quer da vida, ou o que fazer com o país - destino implícito dessa acusação. Esses briguentos, essa gente infeliz e frustrada não pode, portanto, constituir uma alternativa de poder.
Nesses tempos de tirania do gozo absoluto, de interdição totalitária do sofrimento, o PT constitui um acinte. Uma ameaça, simbolicamente poderosa, que precisa ser