Poucas vezes a expressão "a informação é uma mercadoria" ficou tão bem evidenciada quanto na edição do dia 6 de fevereiro do jornal Zero Hora, de Porto Alegre. Os assinantes do diário do Grupo RBS receberam o jornal envelopado por um anúncio do Jurerê Beach Village, novo empreendimento imobiliário construído na praia de Jurerê, em Florianópolis. "Um lugar para se encontrar com a felicidade e não desgrudar mais. A conquista da liberdade", segundo a propaganda. Não é a primeira vez que acontece, mas, desta vez, a dose foi dupla.
Quando o assinante retira o jornal do envelope, depara-se com a seguinte manchete: "Mais concorrência amplia descontos do Liquida Porto Alegre". A matéria-anúncio convoca a população a participar da "megaliquidação que deve envolver cerca de 7 mil pontos-de-venda da capital até o dia 28 de fevereiro". Além da mercantilização total da informação, a edição de ZH mostra outras coisas também.
Esse jornal, seguindo tendência majoritária na mídia, não se cansa de denunciar, em editoriais e matérias, as "contaminações ideológicas" do pensamento de esquerda, apresentando-se como porta-voz de um pensamento isento de ideologia. Aqui, a hipocrisia mistura-se ao cinismo. Quem conhece Florianópolis, sabe muito bem o que se tornou o norte da ilha: um espaço de privatização de espaços públicos, com a construção de sucessivos condomínios, resorts e hotéis que só ajudam a dinamitar a já precária infra-estrutura de saneamento da ilha.
Cada vez mais, espaços de mar e areia são privatizados, o que é denominado de "a conquista da liberdade". Essa onda avança agora para o Sul da ilha, chegando até ao Pântano do Sul, onde os condomínios também começam a avançar, sob lema: "uma praia do passado a sua frente". Ou, dito em bom português: essa é uma das últimas trincheiras que precisamos ocupar e instalar nossos shoppings centers, nossas casas de fast-food, o reino da liberdade, enfim.
O paraíso fica em Camboriú
O reino da liberdade e da felicidade já se estendeu por um vasto território no litoral de Santa Catarina. Quem conheceu a região de Bombas e Bombinhas há uns dez anos atrás que o diga. Lá reina a felicidade no verão, com milhares de pessoas se acotovelando na areia, disputando centímetro a centímetro as calçadas e as dezenas (quiçá centenas) de estabelecimentos comerciais espalhados pela praia. O programa máximo dessa visão empreendedora parece ser transformar o litoral em uma grande Camboriú, aquele lugar agradável e tranqüilo, onde também reinam a felicidade e a liberdade.
Para quem ficar muito estressado com tanta felicidade, o negócio é comprar seu próprio pedaço de praia como o anúncio que envolve o jornal promete. Obviamente, para os executivos da RBS, não há nada de ideológico nesses empreendimentos e em sua propaganda. Assim como não há nada de ideológico em vender uma liquidação como manchete do jornal.
Ostentar o início de uma megaliquidação em uma manchete de capa pode ser visto como um serviço de utilidade pública para a população mais pobre. Além disso tem a ver com o interesse dos comerciantes-anunciantes em se livrar do estoque de verão que não foi vendido nas festas de fim de ano. Mas o que é mesmo mais interessante na manchete do "Liquida Porto Alegre" é a apologia ao valor da concorrência. Pena que a própria RBS não pratique isso em sua ação empresarial.
Nos últimos anos, o grupo tem se dedicado com afinco a comprar todos os jornais do interior que puder, em asfixiar jornais de bairro de Porto Alegre que ousem circular além de sua quadra e a concentrar o maior número de veículos de rádio, tv e mídia impressa que puder. As táticas para isso são arrojadas e não conhecem limites. Recentemente, a empresa passou a planejar a instalação de um jornal do grupo em Passo Fundo. E esse planejamento não é baseado, exatamente, no princípio da concorrência.
Que nome da a isso?
Passo Fundo é uma cidade de cer
A informação como mercadoria. E vice-versa
Por Marco Aurélio Weissheimer - Chegará o dia em que, se quisermos ter alguma informação, deveremos deixar os jornais de lado, desligar as TVs, rádios e computadores e sair às ruas para ver o que se passa no mundo. Um mundo que parece estar em liquidação. (Leia Mais)
Quarta, 08 de Fevereiro de 2006 às 12:09, por: CdB