Rio de Janeiro, 19 de Setembro de 2026

A indução do esquecimento como cultura política

Por Flávio Aguiar - Escreve-se e fala-se muito hoje em “cultura do esquecimento”. É um termo de moda, citado com mais frequência entre nós desde que entrou em cena a Comissão da Verdade, nomeada pelo governo federal.

Sexta, 18 de Outubro de 2013 às 12:15, por: CdB
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Escreve-se e fala-se muito hoje em “cultura do esquecimento”
Escreve-se e fala-se muito hoje em “cultura do esquecimento”. É um termo de moda, citado com mais frequência entre nós desde que entrou em cena a Comissão da Verdade, nomeada pelo governo federal. Não poucas vezes a discussão disseminada, ainda que relativamente em poucos círculos e na mídia – velha ou alterantiva – gira em torno da questão de se a Comissão da Verdade vai ser uma “Comissão de Verdade”, ou se será apenas a produtora de mais uma pilha de documentos a ser relegada às gavetas – às gavetas do esquecimento. Desde logo se deve fazer uma distinção de uso. Uma coisa é a presença, eventual ou não, desta expressão em trabalhos como os de Márcio Seligmann-Silva, Olgária Mattos, Olga Moraes von Simson e outros, pesquisadores acadêmicos que se debruçam sobre o mal-estar contemporâneo das “sociedades do esquecimento” (que deletam o papel dos idosos na preservação da memória)(von Simson), ou sobre o “mal de arquivo” (com a “revolução/invasão” midiática e digital) (Seligmann-Silva), ou ainda sobre o Brasil como uma espécie de “geografia do lugar nenhum”, um país, nação ou entidade “sempre a caminho” (Olgária Mattos). Outra coisa é o uso diluído desta expressão, que vê na “cultura do esquecimento” uma espécie de “macro-proteína” ou “macro-cromossoma” incrustrado no DNA do povo brasileiro, eterno condenado à impotência da memória por uma espécie de “hybris” ou “falha de nascença”. À direita, este uso costuma relegar o povo brasileiro a uma espécie de “povo de segunda categoria”, leviano, futeboleiro, carnavalesco, não sério. À esquerda, seu uso, embora na intenção nào vá até aí, chega na realidade ao mesmo destino, por outras vias, nos vendo com “inferiores” diante da riqueza memorialística de países como a Argentina, o Chile, a Alemanha pós-nazista, etc. Este segundo uso ronda sistematicamente  conversas, observações casuais, a mídia, artigos de jornal, e lembra que as palavras são como plataformas de múltiplos andares, e não se pode perder de vista esta multiplicidade de significados possíveis. O fato de uma expressão ter origem em alguma fonte primeva, não torna a acepção ou a intenção desta ur-fonte a dona do seu significado, excluindo a vigência ou a presença dos demais possíveis. Um aspecto interessante desta constatação apareceu no debate o espaço da memória e da liberdade na Feira de Frankfurt, com a participação de Maria Rita Kehl que, além de escritora, ensaísta, poeta epsicanalista, ali estava também na condição de membro (estranha palavra, que não tem feminino) da Comissão da Verdade. Maria Rita lembrou, por exemplo, que depois da ditadura a sociedade de consumo implantada em vertiginosa expansão se apropriou midiaticamente de palavras como “amor”, “felicidade”, “realização”, de tal modo que seu conteúdo original se perdeu na poeira, e hoje elas não querem dizer mais nada além do que o mundo virtual e midiático nos empurra pela frente. Uma expressão como “cultura do esquecimento”, sem perder de vista a originalidade dos pensadores citados lá encima, pode estar indo no mesmo caminho. Por quê? Porque seu uso indiscriminado dilui a responsabilidade pelo que se pode chamar de uma “atitude para o esquecimento”, de uma “indução ao esquecimento”, de uma “política para o esquecimento”. O termo “cultura” também está passando por esvaziamentos estratégicos – dentro e fora do Brasil. A direita européia não se julga mais “racista”. Seus inimigos de agora são ocupantes indevidos de espaços estratégicos do continente – como o emprego, os direitos da cidadania, os da educação e da saúde, dentre outros. São “indevidos” estes ocupantes não porque sejam “racialmente inferiores”, como no passado, mas porque são de “outra cultura”, que não a “nossa”, europeia, cristã-ocidental. Esta pecha – de “alteridade” indesejável  – atinge sobretudo o mundo muçulmano, venham os membros deste mundo dos confins da Ásia, da Turquia e proximidades, ou do norte da África, até as margens do Atlântico. Ela anima tanto os partidários de Marie Le Pen quanto os leitores entusiastas (há os críticos) dos livros de Thilo Sarrazin na Alemanha, o homem autor do best-seller que o enriqueceu da noite para o dia, “A Alemanha que se auto-destrói. Também os chineses – pessoal e empresarialmente – entram neste “nicho”. Embora outros orientais – como os japoneses – tenham se ocidentalizado através de adesão aos valores do “mundo do trabalho”. Já os africanos do sub-Sahara e os latino-americanos,  uma outra classificação os aguarda – a de serem “desprovidos de cultura”, ou no máximo, portadores de uma “cultura exótica”, uma maneira de colocá-los (r-nos) num limbo de onde só podem(os) sair   aceitando os valores da cultura europeia. Europeia? Bem, digamos, mais do norte da Europa do que outra coisa. Porque o mesmo “desprovimento” ou “desarvoramento” cultural se estende ao “sul da Europa”, formado por países onde grassa uma “cultura do desperdício”, da “preguiça”, da “aposentadoria fácil” e mesmo uma “cultura da corrupção”. Tal uso de tal palavra é uma derivação diluidora das teorias acadêmicas de Samuel Huntington que, respondendo à teoria do “fim da história” de Fukuyama, previu que as guerras e conflitos do século XXI teriam um pano de fundo cultural, ao invés de ideológico, econômico ou de classe. E para este tipo de visão o “terrorismo islâmico” é o inimigo perfeito, pois ele está, ubiquamente, ao mesmo tempo em toda parte e em parte nenhuma: é o “inimigo invisível”, percebido apenas através de seus efeitos espetaculares – explosões, homens-bomba, guerras furtivas – ao invés de uma presença corpórea bem definida e permanente. Esta perspectiva também induz ao “esquecimento”. Na Alemanha o caso mais gritante (ao lado de outros) desta indução foi o o dos terroristas de extrema-direita sediados em Zwickau, agora descobertos, mas que ficaram na clandestinidade durante mais de uma década, assassinado dez pessoas, além de outros atentados, enquanto os serviços secretos e as políciais do país procuravam uma hipotética “máfia turca” que nunca existiu. No caso brasileiro, a “atitude para o esquecimento” é e foi mantida, em grande parte, pela “velha mídia”, que não só apoiou a ditadura como reluta em admitir seu envolvimento nesta e em outras tramóias (apesar do pedido de desculpas da Rede Globo). Há outros exemplos históricos, desde os tempos pós-cabralinos até os dias de hoje, no sistema educacional, por exemplo, na manutenção da crença na “harmonia racial brasileira” e assim por diante.  Esta “atitude” adquire uma dimensão política maior porque aspira, no espaço público, a uma hegemonia que desqualifica quem lhe for contrária, como “do passado”, “dinossauro”, “populista”, etc. Invade as teorias econômicas, louvando os pressupostos neoliberais e desqualificando (mais do que se opondo) os outros, acobertando seu caráter problemático (para dizer o mínimo) em todas as partes do mundo onde foram aplicados, por exemplo. Durante a ditadura tanto a “atitude para o esquecimento” como “a política para o esquecimento” tornaram-se uma política de Estado, sistemática e tenaz, apoiada, em largo período, pela mesma mídia que ajudou a induzir o golpe de 1964. Hoje, embora não seja mais uma política de Estado como já foi, não se pode dizer que ela tenha sido completamente erradicada do Estado brasileiro. Muitos setores do Estado permanecem presos a ela, através de agentes que continuam procurando ocultar, destorcer, velar, turvar a visão da violência que continua permeando muito das relações sociais no Brasil e da relação de sua coletividade com sua própria história. Avançamos mais na oposição a esta política de cumplicidade com a violência do que reconhece o senso comum. Não somos superiores nem inferiores a outros países e sociedades, que mantém seus pontos cegos induzidos junto à coletividade. Desconheço algum museu da história da bomba atômica nos Estados Unidos, bem como nào conheço, por exemplo, rememoração sistemática do imperialismo japonês em relação ao restante da Ásia. Seria um erro dizer que isto está em algum “DNA” destes povos, bem como dizer que o esquecimento é “nosso”por alguma “natureza cultural”. Flávio Aguiar é correspondente internacional da Carta Maior em Berlim. 
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