Rio de Janeiro, 09 de Setembro de 2026

A Indignação Seletiva Ancorada na Rede Globo

Sexta, 10 de Junho de 2011 às 10:40, por: CdB

Por Idiota Eletrônico 10/06/2011 às 16:26

Afinal, o crime é, ou não, uma profissão? E se positivo, os profissionais do crime têm ética? O que é ética? Quem assistiu ao filme "Quarto do Pânico"?

O crime é uma profissão? Se positivo, os profissionais do crime têm ética?

Hoje os apresentadores do 'Bom Dia Brasil', telejornal matutino da Rede Globo, se mostraram indignadíssimos com o assassino do aluno da Universidade de São Paulo, Felipe de Paiva, e com seu advogado, com este último, porque ele disse que o crime é uma profissão, e com o criminoso, porque ele é frio.

Afinal, o crime é, ou não, uma profissão? E se positivo, os profissionais do crime têm ética? O que é ética?

"MARX E A FUNÇÃO SOCIAL DO CRIME

"Um filósofo produz idéias, um poeta versos, um pastor sermões, um professor manuais etc. Um criminoso produz crimes.

Se considerarmos um pouco mais de perto a relação que existe entre este ramo da produção e o conjunto da sociedade, revelaremos muitos preconceitos.

O criminoso não produz apenas crimes, mas ainda o Direito Penal, o professor que dá cursos sobre Direito Penal e até o inevitável manual onde esse professor condensa o seu ensinamento sobre a verdade. Há, pois, aumento da riqueza nacional, sem levarmos em conta o prazer do autor. O criminoso produz ainda a organização da polícia e da Justiça penal, os agentes, juízes, carrascos, jurados, diversas profissões que constituem outras categorias da divisão social do trabalho, desenvolvendo as faculdades de espírito, criando novas necessidades e novas maneiras de satisfazê-las. Somente a tortura possibilitou as mais engenhosas invenções mecânicas e ocupa uma multidão de honestos trabalhadores na produção desses instrumentos.

O criminoso produz uma impressão, que pode ser moral ou trágica; desta forma ele auxilia o movimento dos sentimentos morais e estéticos do público. Além dos manuais de Direito Penal, do Código Penal e dos legisladores, ele produz arte, literatura, romances e mesmo tragédias. O criminoso traz uma diversão à monotonia da vida burguesa; defende-a do marasmo e faz nascer essa tensão inquieta, essa mobilidade do espírito sem a qual o estímulo da concorrência acabaria por embotar. O criminoso dá, pois, novo impulso às forças produtivas..."

Karl Marx ("apud" Henri Lefebvre. Sociologia de Marx. Rio de Janeiro: Forense, 1968, pp. 79 e 80). "

O profissional do crime tem ética?

De acordo com a própria notícia da globo, os assassinos tiveram pena de uma deficiente física e a pouparam:

"O criminoso contou que Felipe não foi a primeira vítima a ser abordada na noite do dia 18 de maio. Antes, ele e um comparsa tinham tentado roubar o carro de uma mulher com deficiência, mas desistiram porque, segundo disseram, ficaram com pena. Foi quando viram Felipe. Na versão de Irlan, quem deu o tiro no estudante foi o comparsa, mas ele não revelou o nome do assassino. O advogado dele concordou.

"Uma regra de quem é do crime: nunca entrega parceiro. Todo bandido tem ética. Você é um cara experiente na área criminal, eu sei que você está fazendo essas perguntas simplesmente por fazer, porque você sabe que em todas as profissões tem ética?, disse o advogado."

 http://g1.globo.com/bom-dia-brasil/noticia/2011/06/advogado-de-jovem-que-confessou-participar-de-crime-na-usp-tem-etica.html

A ética não é universal nem no tempo nem no espaço. Ela depende das épocas históricas, das classes e grupos sociais. O que é ético num determinado tempo e determinado espaço territorial pode vir a ser anti-ético ou ser antiético em outro lugar.

A Rede Globo, por exemplo, defendeu a invasão do Iraque, do Afeganistão e da Líbia mas nada diz contra as injustiças cometidas nesses países pelos imperialistas invasores. Os imperialistas estão bombardeando a Líbia com urânio empobrecido mas eles nem falam nisso. Anti-ético é só o Kadafi. Os bombardeios imperialistas são éticos e humanitários.

Eles não se indignam com os fabricantes de armas, pois a fabricação de armas não é um ato anti-ético; anti-ético é apenas o favelado que mata com as armas cujo ato de fabricação foi ético. O criminoso não tem ética mas a espetacularização do crime e a elevação da audiência da rede globo ao noticiar o seu crime é um ato ético.

Os âncoras da rede globo malham os criminosos mas nada dizem sobre as circunstâncias sociais que os geraram, não se indignam com as desigualdades sociais nem com a falta de oportunidades, de emprego, de educação de verdade, de saúde, de cultura, de saneamento básico, de esperança, etc. "Do rio que tudo arrasta", disse o poeta e dramaturgo revolucionário alemão Brecht, "se diz que é violento mas ninguém diz violenta as margens que o comprimem".

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